Crítica: “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” é o encontro do cinema com a prosa poética

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Filme é baseado na obra de Guimarães Rosa (Foto: Cinema de Arte/Cinépólis)

“Sapo não pula por boniteza, mas por precisão”.

Após alguns anos de espera, finalmente estreia o filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga (Idem, 2012/2015) de Vinícius Coimbra, ou o encontro da sétima arte com a prosa poética de Guimarães Rosa.

Na trama adaptada, Augusto Matraga (João Miguel) é um fazendeiro violento, que adorar beber e ser mulherengo. Orgulhoso, está também à beira da falência. Após ser abandonado pela esposa (Vanessa Gerbelli), é emboscado pelos capangas de Consilva (Chico Anysio), que o marcam com ferro, o atiram em um precipício para morrer.

Contudo, Augusto é encontrado à beira da morte por um casal, que cuida de sua recuperação. Cinco anos depois ele deixa o local, completamente mudado e agora temente a Deus.

“Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos… sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio dia”.

É quando Matraga conhece Joãozinho Bem Bem (José Wilker), jagunço que o faz viver um conflito interno, instigando os instintos violentos de sua personalidade. Augusto então começa a oscilar entre seu temperamento agressivo e o misticismo que não consegue mais abandonar.

“Tomara que uma coruja ache graça na tua porta”.

Premiado no FestRio 2012, o filme teve problemas de distribuição e direitos autorais e só chega aos cinemas alguns anos depois. No elenco João Miguel, Vanessa Gerbelli, Irandhir Santos, José Wilker (que antes de morrer atuou ainda em O Duelo, 2015), José Dumont, Júlio Andrade (Gonzaga: De Pai Pra Filho) e Werner Schunemann.

Matraga é apresentado como o Diabo em pessoa. E o faz por direito ser chamado assim. Temido, tinhoso, orgulhoso demais, faz o que quer com a mulher e filha em sua propriedade. E as imagens se entregam do sagrado (ao mirar uma cruz na igreja da cidade) ao profano (ações de Matraga). Ele cospe, mata, compra mulheres, distribui pesadelos e se entrega à violência de ser. Até ser dado como morto.

“Para quem não sai da linha, até apito de trem é mau agouro”.

Repare nos olhos de João Miguel. Do inferno inicial à paz e entrega divina posterior. Sequência vital para o filme, sua transformação encontra um ator a altura. A redenção de sua alma é cristalizada em meio a uma tempestade que finca o seu renascimento pessoal. A rima visual para um batismo é repetida quando o protagonista se deita em um córrego e se encontra em paz com a natureza.

Além das belas imagens sacramentadas pela câmera de Vinícius Coimbra, seu diretor de fotografia (Lula Carvalho) também brilha, literalmente. E mais, seu grande elenco acompanha a qualidade da obra.

Irandhir Santos é o frouxo, mas fiel escudeiro Quim. Seu falatório é genial, e a busca pela vingança, surpreendente. Chico Anysio, em participação especialíssima, tem pouco tempo na tela, mas seus momentos merecem aplausos também. Desde a (espetacular) descrição, o Joãozinho Bem Bem de José Wilker é interessante. Homem de palavra, ele vê em Matraga a bondade, mas de passado selvagem, e assim se entrega confiante a essa amizade.

“Deus mesmo, quando vier, que venha armado”.

Com um texto incrível – estamos falando de uma fiel adaptação de Guimarães Rosa – que faz até um homem mudo gritar (parafraseando o próprio autor), o drama é um dos melhores filmes do ano. Capaz de produzir até um duelo final em que se faz justiça, sem precisar se vingar. Uma justiça poética entregue nas mãos de Deus, mas não sem antes passar pelo Diabo.

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