Crítica: “Animais Noturnos” transforma trauma romântico em narrativa perturbadora

Animais Noturnos (Nocturnal Animals, 2016) de Tom Ford

Desde a abertura, com mulheres obesas se entregando à felicidade ao dançarem nuas com chapéus e bandeirolas exaltando à América, Tom Ford avisa ao público: se você não se chocar com essa imagem, nada te chocará mais nessa história. E sim, prepare-se, porque a voltagem aqui é forte.

Aviso dado, vamos lá.

Susan (Amy Adams) e Edward (Jake Gyllenhaal) estão separados há 20 anos. Mas a relação ainda reverbera em ambos. Ela é uma negociante de arte, postada no topo da sociedade de Los Angeles. Mesmo com seu esposo, Hutton (Armie Hammer), estar em dificuldades nos negócios. Ele leciona e tem um desejo de ser um escritor e publicar um romance. E o manuscrito do seu livro chega às mãos de Susan, numa obra perturbadora e violenta, mas dedicada à ela.

Narrativa

Adaptado do livro homônimo de Austin Wright pelo próprio Tom Ford, a narrativa de Animais Noturnos é entrecortada em três linhas.

1. A situação atual de Susan, e como ela reagirá após receber (e ler) o livro;

2. A trama do livro, que avança violentamente em forma de história ao espectador;

3. O relacionamento de Susan e Edward, destrinchado em vários flashbacks. E a sempre que um novo fato é revelado em cada uma das narrativas, mais faz sentido seu conjunto como um todo.

Da forma como a narrativa foi escolhida para ser contada, é montado magistralmente a partir de rimas visuais. Repare nos movimentos de corte para imagens semelhantes na banheira, em um corpo de uma jovem na cama para outra, da chuva ao chuveiro, da lareira de verdade para uma de mentira (traduzindo uma vida de mentira), o livro no chão (ou a vida no chão), um choque de realidade e o susto… Todas as junções de fatores e sentimento estão unidos, e ainda, ungidos nas imagens na tela.

Tudo que está no livro, explica o autor, e foi graças ao incentivo da ex-esposa. Mas o que se lê em suas páginas brutais, é que na verdade é produto da ruminação traumática de suas experiências e reminiscências adquiridas com o doloroso fim do relacionamento. E prepare-se, pois é uma pancada atrás da outra.

“Não tenho o direito de ser infeliz”

Quando vimos Susan (Amy Adams) pela primeira vez, ela está cercada de muita gente. Mas sozinha. O jogo de aparências está na mesa, em que ela vive numa queda livre emocional, perdida entre o cinza e o branco. Ponto tanto para o desenho de produção (direção de arte & cenários), quanto para a fotografia. Há ainda a valorosa ajuda de um figurino que trafega entre o suntuoso e o modernoso, mas sempre flertando a breguice, o over, ao desenhar a futilidade em cena, além da trilha sonora hipnotizante.

A zona cinzenta da sua vida é sua casa. O portão da sua casa reflete a imponência que habita ali, mas como diz o ditado, nem tudo que reluz é ouro. Sua mansão tem grandes lacunas entre seus espaços, e a relação com o marido é distante. Zero carinho e nada de afeição. O branco é o sentimento frio que reflete um trabalho fútil, e um imenso vazio na arte exposta.

Além disso, somos socados com uma frase que costura a realidade de tal forma que chega a doer, de tão cruel. “Não tenho o direito de ser infeliz”, chora Amy Adams para mais uma de suas colegas superficiais, que se acumulam na trama (a mesma que celebra as vantagens de um casamento com um gay, entre outras como uma que não se importa em ter o celular, pois assim compra o último lançamento, ou a senhora dos lábios inchados/botox… Etc).

Mensagens subliminares

Reparem também nas mensagens subliminares de Animais Noturnos. A parede grita “revenge” (vingança), e é um aviso do que está por vir. E não custa a aparecer, primeiro no livro, depois na vida real;

No livro, a personagem da esposa (Isla Fischer), é retratada como o mesmíssimo biotipo da ex-esposa do escritor, enquanto a filha dos dois no livro é exatamente igual a filha da personagem de Susan (Amy Adams);

Em um dos flashbacks, o carro dos estupradores (do livro) aparece no momento final de uma conversa que muda de tom até virar uma discussão, e que culmina com o rompimento amoroso de um casal;

Para finalizar, as obesas da exposição aparecem na porta do bar onde o personagem de um estuprador (Aaron Taylor-Johnson) é capturado antes da tentativa de justiça com as próprias mãos, na trama dentro do livro.

Premiado

Drama que bate forte na mente e no sentimento, mas que trafega também no suspense, a obra de Tom Ford concorreu ao Leão de Ouro em Veneza. No festival, ganhou o Leão de Prata de Grande Prêmio do Júri. No Globo de Ouro concorre a três prêmios (melhor direção e roteiro, para Tom Ford, e ator coadjuvante para Aaron Taylor-Johnson), e deve figurar entre os indicados ao Oscar 2017.

Elenco

Animais Noturnos apresenta um baita elenco, e de escolhas primorosas na distribuição de papéis.

Em sua trama, um sentimento está entrelaçado com outro, além de reverberar no seguinte. Dessa forma a obra vai ganhando corpo e desenhando um embate entre um elo fraco e um forte, representado por Amy Adams e Jake Gyllenhaal. Ambos incríveis, mas com uma ligeira vantagem para a ruiva. Se postarmos os protagonistas, frente a frente, percebe-se o quão oposto isso bate.

Com ela, a mudança desemboca para que ela se transforme em aquilo que (aparentemente) nunca desejou, mas se demonstrava inato. “Você tem os olhos tristes da sua mãe”, aponta Edward em dado momento. Do cabelo solto e sorriso no rosto, ao penteado elegante que esconde a metade de sua face, e consequentemente os seus sentimentos.

Já com Edward, tido como o elo fraco da relação, esse julgamento reverbera de forma oposta quando ele reescreve de forma forte (literalmente) sua própria história.

No meio dos dois temos um elenco de apoio espetacular. Vamos aplaudir Michael Shannon. Na pele do Detetive (do livro) que vive seu trabalho intensamente até o último segundo, o ator demonstra que também atua intensamente até o último segundo em cena.

E mais, Aaron Taylor-Johnson é o caipira-nojento-mor em pessoa. Desde o olhar no vazio, Armie Hammer veste a frieza indo e vindo. Mãe e dondoca, Laura Linney é a representação da frivolidade social americana.

Resultado

Lembra que na primeira cena fomos alertados para o nível de chocante da obra? Perceba que para a protagonista, nada pode ser mais chocante do acontece em seu último momento, e o nível de choque continua tão brutal quanto em sua sequência de abertura.

E como a obra pode ser percebida e recebida, de uma forma totalmente diferente a cada um que a recebeu, assim como a sua cena de abertura, você pode ver apenas a beleza da situação (mesmo que fora dos padrões), a celebração do ser humano, ou apenas o bizarro numa circunstância ridícula.

Eu vejo aqui a beleza de um filme pesado, mas que se mostra essencial para a nossa sociedade. Aquela que veste ganância, que respira futilidade, que insiste em levar vantagem sobre o outro (pior, se gaba por isso) e é extremamente mal educada. Porque as pessoas simplesmente não são menos egoístas e procuram tão somente melhorar? Bem, se você quer apenas viver no seu “feliz” mundo de faz de contas, então se sinta convidado a chocar-se da primeira a última cena de Animais Noturnos.