Crítica: “Bate Coração” sensibiliza para doação de órgãos e alfineta homofobia

O ano de 2019 está sendo de expressivo destaque para realizadores de Cinema cearenses, a exemplo de Pacarrete (Allan Deberton, 2019), grande vencedor do Festival de Gramado, e A Vida Invisível (Karim Aïnouz, 2019), que conquistou a vaga brasileira para a disputa de uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Enquanto isso, a produção, realizada aqui no Ceará, Bate Coração (Glauber Filho, 2019) traz como tema um assunto no qual nosso estado tem sido destaque já há bastante tempo: o transplante de órgãos. Mesmo sendo referencia do país nesse tipo de procedimento, de acordo com os dados das entidades públicas de saúde, a conscientização sobre a questão ainda é um desafio por aqui.

Pensando nessa realidade, o longa, escrito e dirigido pelo também cearense Glauber Filho, procura sensibilizar a formação de novos doadores. Bate Coração conta a história de um homem que, após transplante, passou a ter o coração de uma travesti que teve morte cerebral devido um acidente de trânsito. Ao longo do enredo, a alma dela, a Isadora Sunshine (Aramis Trindade), rodeia a vida do transplantado, Sandro (André Bankoff), e de demais personagens em busca de concluir tudo aquilo que deixou pendente em vida. Dessa forma, o espiritismo é outra temática presente no filme, marca bastante frequente nos trabalhos de Glauber Filho, a exemplo de As Mães de Chico Xavier (2011) e Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito (2008).

Diferentemente desses títulos, Bate Coração é uma comédia, a primeira da carreira do referido diretor. Ela consegue arrancar algumas gargalhadas ao longo da exibição, mas ainda é preciso acertar o timing do viés humorístico. O roteiro é muito bom e merecia ser melhor explanado, muitas revelações do passado da personagem principal, que tem uma história bem interessante, aparecem de forma atropelada. A narrativa acelerada faz com que algumas passagens não se tornem críveis, como a velocidade com que um filho abandonado passa a aceitar a memória do pai falecido. Ao abordar o metafísico, a direção fugiu de clichês como “a luz no fim do túnel”, ou seja, mais comedimento ao longa e enfoque para a questão central: a doação de órgãos.

Aramis Trindade, o mais conhecido e experiente do elenco, dá vida e morte à Isadora Sunshine com todo o brilhantismo esperado à personagem e a competência que o ator é capaz de proporcionar. Merece destaque também a expressiva atuação de Germana Guilherme, a primeira dela em longa-metragem, e a hilariante personagem Madenusa, interpretada por Dênis Lacerda e responsável pela maior parte das risadas durante a exibição. As demais atuações são razoáveis, com exceção de André Bankoff, que está abaixo da média apesar de ter assumido o segundo papel mais importante do filme.

No enredo, ao mesmo tempo em que a alma de Isadora buscar fechar as querelas deixadas em vida, Sandro procura entender as mudanças de comportamento que passou a ter após o transplante, até que descobre a origem do coração que pulsa no organismo dele. O personagem é extremamente machista e homofóbico, daqueles que veem as mulheres basicamente como objetos sexuais, fator esse que eleva a tensão da trama, até que surge a Luísa (Laura Milério), garotinha de dez anos que está entre a vida e a morte na fila de espera para um transplante. Apesar de todos esses temas pesados, estamos falando de uma comédia leve, e o que contribui bastante para ocultar o teor soturno e proporcionar animação à obra é a trilha sonora habilmente selecionada.

Fotografia iluminada e paleta de cores colorida também colaboram para esse resultado. O público ao redor do Brasil terá a sensação que a história se passa em qualquer grande cidade, mas o fortalezense se identificará com propriedade em diversas paisagens, como as tomadas aéreas de enquadramento preciso, a cadeia de hospitais ao longo da Avenida Heráclito Graça, a Rua Castro e Silva e o tenebroso Centro da Cidade após anoitecer. Enfim, Bate Coração é um filme que gera no público revolta contra o preconceito e emoção pelas vidas salvas através da doação de órgãos. De fato, faz o expectador sair da sala de cinema pensando em se tornar um doador. Indicado para toda a família, especialmente aos homofóbicos, que infelizmente sabemos que não procurarão assistir.