Crítica: Cheio de boas intenções? “Inferno” não chega nem a isso

Inferno (Inferno, 2016) de Ron Howard

Desde o princípio de Inferno (idem, 2016), o espectador está largado em meio a um turbilhão de acontecimentos na visão de um atordoado Robert Langdon (Tom Hanks). Em cortes picotados que lembram o auge de tremelique de Michael Bay (leia-se Transformers), a montagem insiste em mostrar sangue, cortar para cenas aceleradas (ou seria sufoco?) de difícil compreensão de tempo-e-espaço, e um roteiro que aposta em expor tudo que está se passando na tela e o que vem adiante.

A produção é a terceira obra adaptado da série de livros de Dan Brown, que trazem o professor de Simbologia de Harvard, Robert Langdon como fio condutor das histórias de mistério em meio à obras de arte. Depois do insosso O Código DaVinci (2006) e o sonolento Anjos & Demônios (2009), Inferno (2016) chega para “coroar” (negativamente) a trilogia com um filme que se acha super inteligente, mas é tão somente ruim. É o pior dos três. Não que seja grande coisa.

Na trama, Robert Langdon (Tom Hanks) tem de resolver um enigma centrado na obra literária ‘O Inferno’, de Dante Alighieri. O que vemos é uma corrida contra o tempo cheio de pistas falsas, mas sem surpresas, locais de arte históricos, passagens secretas e a aplicação da ciência para criar um vírus que pode dizimar boa parte da população mundial.

A construção da tensão é ruim, o personagem que rege a possível catástrofe, Bertrand Zobrist (Ben Foster) é revisado praticamente em flashbacks, sem nunca ser crível como pessoa ou sua motivação megalomaníaca. Personagens secundários são jogadas com gosto na tela, como uma forma de preencher a trama com ações para cada um deles.

A “ajudante” de Langdon, Dr. Sienna Brooks (Felicity Jones), não passa da obviedade até já vista em outra adaptação de Dan Brown. Omar Sy é um perdidinho agente da Agência Mundial de Saúde, de olhar vazio, frases ditas a esmo e olhar distante. Era pra ter medo da perseguição dele? Ele era para ter alguma inteligência em sua caçada? Não percebi nada disso.

A Dr. Elizabeth Sinskey de Sidse Babett Knudsen não vai mal, mas sua posição no longa só ganha – digamos – importância em momentos físicos. Tão desnecessário quanto o próprio professor Robert Langdon (Tom Hanks) – o cara que pensa – sair no braço em dado momento. Sério? Ah, e em prol da ação/tensão até um personagem sem nome ganha súbita relevância no clímax (patético, por sinal).

O indiano Irrfan Khan é o melhor em cena na pele de Harry Sims, de frases cortantes e postura inicialmente misteriosa, mas depois resolutiva. Já Tom Hanks – pela terceira vez na pele de Langdon – está em modo automático.

A direção é do oscarizado Ron Howard (por Uma Mente Brilhante, 2001), que não mencionei até aqui por motivos de simplesmente não fazer diferença nenhuma. A maior parte das sequências parece que foram filmados pelo estagiário do diretor, sem nenhum tipo de noção de espaço-tempo na tela. Uma coleção de takes sem nenhum tipo de cuidado. Apesar do prêmio citado acima, seu melhor filme ainda é Rush – No Limite da Emoção (2013).

Para um filme que se vende como algo inteligente, é somente auto-expositivo com o uso acentuado da cabeça-enciclopédia de seu protagonista. Ele, que mais uma vez não tem apenas um corte de cabelo ridículo, mas as soluções da trama piores ainda. Se o ditado diz que o inferno está cheio de boas intenções, o filme “Inferno” não chega nem a isso. Um dos piores do ano.