Crítica: “Cinquenta Tons de Cinza” é um filme broxante

Sucesso de público, fracasso de crítica (foto: Universal)

Príncipe encantado existe? Parece que para as leitoras dos livros de E. L. James sim. Quando uma estudante de literatura inglesa (hummm), conhece por obra do destino (hummm) um bilionário (hummm), bonito (hummm), malhado (hummm) e solteiro (hummm), a atração entre os dois é imediata. Ela, uma ingênua virgem (hummm), ele, um rapaz com tendências sadomasoquistas (hummm), fruto de traumas de infância (hummm). Poderia ser cômico se não fosse levado tão a sério.

Pois é.

Depois de mais de 100 milhões de cópias de livros vendidos, chega aos cinemas a adaptação de Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey, 2015) de Sam Taylor-Johnson. Romance pseudo-sadomasoquismo que sonha em ser um pornô-chic, a obra tem ainda um subtexto de drama psicológico barato e é puro e simplesmente um produto. E ruim.

A relação de Anastasia Steele (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan) é baseada em posse, atração física com um recheio de romance. Bem, é o que a jovem deseja, e ao ser seduzida com viagens de helicóptero, voo de aeroplano (parece cópia de Thomas Crown), presentes caríssimos, serviço de chofer e sequestros em meio à embriaguez noturna, provam que tudo entre eles deveria ser fácil, muito fácil de ser resolvido.

O filme o apresenta seu protagonista como sofisticado, mas seu salão de jogos quer transformá-lo num doente. Certo. (Ironia). Seis palmadas depois e o fim está próximo. A paixão acabou e o amor sofre entre a dor e o ódio.

Mas o bilionário é pura pose, cara fechada e que insiste em tirar a camisa. E a roupa. Ladra mais que morde. Se insinua um doente sadomasô para se fechar em seu mundo de posses. Incluindo a posse de uma pessoa. Ah, e há um contrato de submissão, imaginem o quanto um texto pode ser tão vergonhoso.

Casal

Ator da escola Cigano Igor de interpretação, Jamie Dornan (de Maria Antonietta, 2006) é um boneco de cera com tanquinho. Nem seu salão de jogos o salva. Cara de mau, é um garotinho mimado armado com chicotes e algemas. Em vão. Pois seus jogos eróticos são brochantes.

Dakota Johnson – filha de Melanie Grifith e Don Johnson e que tem cinema no DNA – se esforça bastante. Mais nua em cena que seu par, ela se esconde na franja, se arrepia, geme, morde os lábios e se enrubesce. É uma jovem comum que demonstra no brilho dos olhos que acredita no amor. Nesse momento o dó salva.

Mise en scene

Boa diretora, Sam Taylor-Johnson (do ótimo O Garoto de Liverpool, 2009) se esforça em deixar as sequências sensuais apenas bonitas. Seu mise en scene foca nos detalhes das ações (ponto para ela) e abusa de peitos e bundas (ok, ok), mas sem nunca se entregar por completo. Culpa do texto pobre e previsível. Nem Fellini e seus devaneios geniais salvariam um filme com um roteiro tão ruim.

A fita é baseado no livro de mesmo nome do primeiro volume da trilogia que continua com 50 Tons de Liberdade e 50 Tons Mais Escuros, todos escritos pela inglesa E. L. James. Na adaptação, além de muita nudez e um sexo bem comportado para alguém “doente”, há um senso de humor abusivo, com tiradinhas canastras e meia.

Com muitos paralelos da “Saga” Crepúsculo – fenômeno da literatura com texto ruim, a trama apresenta a jovem deslocada que encontra um príncipe encantado com problemas – Cinquenta Tons de Cinza é um filme broxante. Broxante cinematograficamente mesmo.

Previsível do início ao fim, é apenas uma fita sensual de grife, com uma fotografia que insiste em fazer clima com tudo, trilha sonora de motel truando, fantasias eróticas meia boca, romance (?) distante, frases de efeito risíveis e sofisticação em cada detalhe. Pra quê, mesmo?