Crítica: corra agora para o cinema, pois “Corra!” é a surpresa do ano

“Só porque você foi convidado, não significa que você é bem vindo.” (Corra! Get Out, 2017)

O que é mais comum em filmes de terror e suspense nos últimos anos? Os famosos “jump scares”, ou aqueles sustos que te pegam de surpresa, na base do susto por susto mesmo (e com aquela ajuda da trilha sonora), sem algum acréscimo à história na tela.

Pois bem, Corra! (Get Out, 2017) tem seus momentos de sustos, mas é bem maior que isso. O suspense, que marca a estreia na direção e roteiro em um longa-metragem do comediante Jordan Peele, é notável e já é a maior surpresa do ano (até aqui). E antes de mais nada, já te dou a dica: corra para o cinema.

A trama do jovem negro – o fotógrafo Chris (Daniel Kaluuya) – que está prestes a conhecer os pais da sua namorada branca – a bela e inteligente Rose (Allison Williams) – , em um viagem de final de semana, vai pintando suas camadas aos poucos, e revela apenas o que é necessário a cada passo. E suas pontuações são precisas.

A namorada fala que não precisa avisar que ele é negro. O pai de Rose, Dean (Bradley Whitford, O Segredo da Cabana, 2012), chama logo Chris de “my man”, numa clara gíria de negro, além de repetir que votaria em Obama pela terceira vez se pudesse… A casa, ele avisa, é bem isolada do mundo, longe o suficiente até mesmo de uma outra propriedade na região.

A mãe Missy (Catherine Keener), uma psiquiatra, prefere uma certa distância, para depois oferecer seus serviços e hipnotizar Chris, com o propósito de ajudá-lo a parar de fumar. Já seu irmão Jeremy (Caleb Landry Jones) demonstra ser inconveniente. Elogia a raça negra, força situações, é claramente perturbado e agressivo. Então, Tudo parece estar perfeitamente normal ou estranhamente perfeito?

Há ainda a dupla de empregados da casa. Georgina (Betty Gabriel) e o jardineiro Walter (Marcus Henderson), ambos negros, demonstram um comportamento estranhamente fleumático, ao que aparenta ser de sentimentos controlados. Para completar as inquietações abertas na trama, uma celebração anual com membros da sociedade (branca) será mais uma daquelas situações por qual Chris terá de passar.

Então, o que pode estar errado em uma casa tão tradicional? Um porão escuro tomado pelo mofo? Um racismo disfarçado? Será que há algo muito sinistro em ser sincero e amável? Ou tudo não passa de uma mera paranoia do protagonista? Aí está o pulo da história. As possibilidades estão todas abertas, e os caminhos escolhidos aparecem ao final sem costura, de forma orgânica. E assustadora.

Para acrescentar algum humor, lá na cidade temos Rod (Lil Rel Howery), o melhor amigo de Chris que toma de conta do cão em seu apartamento, enquanto suspeita de algo e investiga o que está acontecendo no interior. Mas sem danos ao que se desenrola na tela.

Catherine Keener (indicada ao Oscar de coadjuvante por Quero Ser John malkovich, 1999) está completamente à vontade como uma pessoa que detém o poder em cena. Gostei também da belíssima Allison Williams (da série de TV, Girls), a personificação da amável namorada, e mais ainda do protagonista, Daniel Kaluuya (Black Mirror), com puro sentimento nos olhos (esbugalhados ou não).

Para compor o ambiente esquisito, palmas para a trilha sonora do estreante Michael Abels, composta de sussurros, cordas e acordes cortantes. Com a atmosfera do pavor bem plantada, agora só resta esperar a colheita extremamente eficaz. E o que pode parecer uma metáfora clara, do racismo, na verdade é descortinada de uma forma bem mais elaborada, com o medo a seu favor.