Crítica: “O Processo” é um espelho do debate político atual

O Processo (Idem, Brasil, 2018) de Maria Augusta Ramos

Clássico universal sobre um homem forçado a se submeter a longa e incompreensível ação judicial por crime não especificado, O Processo de Franz Kafka serviu durante muito tempo como uma alegoria para o indivíduo comum esmagado pelo aparato burocrático do Estado. Há, na História brasileira recente, uma figura emblemática do inferno surreal vivido pelo protagonista de Kafka: Rafael Braga, única pessoa presa nas manifestações de 2013, condenado por portar duas garrafas de produtos de limpeza.

O Processo (2018) de Maria Augusta Ramos é centrado no impeachment de Dilma Rousseff, presidente do Brasil à época dos protestos de 2013. Ao contrário do Joseph K. da obra de Kafka e de Rafael Braga, catador de lixo negro e pobre, Dilma era figura poderosa, alçada ao posto mais alto do país e derrubada no segundo mandato durante recessão histórica e após quebrar promessas de campanha.

Há pouco dessas circunstâncias no filme, que adota um estilo fly-on-the-wall com foco nos procedimentos e bastidores que levaram à condenação da presidente no Senado. Nas primeiras cenas a câmera sobrevoa o exterior da Câmara dos Deputados durante a votação da abertura do processo, onde duas manifestações são separadas em cada lado da tela, a montagem contrastando os discursos de políticos pró (“pela família”, “pelo Brasil”, “contra o comunismo”…) e contra o impeachment (“pela população LGBT”, “pelo povo negro”, “pelos trabalhadores”…). Na realidade, não havia uma divisão tão simétrica na simpatia e no perfil da população: em abril de 2016, 70% dos brasileiros apoiavam o impeachment, momento em que ocorreu a maior manifestação de rua da história do país – a favor da saída de Dilma.

Na falta de contexto sobre os fatos, atores principais e sobre a natureza de julgamento político do processo, sobra, ao filme, construir sua narrativa via discursos públicos dos envolvidos e de momentos capturados nos bastidores. Qualquer conclusão do espectador leigo (especialmente o estrangeiro) fica limitada às suas impressões sobre figuras bizarras como Janaína Paschoal, autora do pedido de impeachment, ou sobre a retórica eloquente de José Eduardo Cardozo, advogado de Dilma. A gravidade das manobras fiscais é mencionada apenas brevemente por Cássio Cunha Lima, líder do PSDB no Senado.

A defesa categórica que a ruralista Kátia Abreu faz da atuação de Dilma é uma amostra do conservadorismo de seu mandato como presidente, mas surge solta, descontextualizada – Maria Augusta Ramos opta por não identificar com legendas os indivíduos retratados. Repetindo a etiqueta da militância petista nas redes sociais, quando o áudio de Romero Jucá e Sérgio Machado é tocado, o trecho sobre incluir Lula no acordo nacional é ignorado. Também acaba omitida a informação de que Dilma teve os direitos políticos excepcionalmente mantidos após a condenação. Ao fim, ganha espaço a manifestação de maio de 2017 pedindo pela saída de Temer após denúncia do Ministério Público – mas não o fato de que Lula chamou a investigação de tentativa de “golpe” e elogiou a decisão do presidente de não renunciar, muito menos a campanha coletiva do PT contra a Lava-Jato tão logo Lula e seus correligionários passaram a ser investigados.

A ausência de narração e entrevistas dá aparência de procedural a O Processo, mas é nesses recortes que o filme constrói seu discurso. A bem da verdade, talvez qualquer síntese do impeachment de Dilma restrita a um apanhado imagético do processo no Congresso ofereceria um retrato simbólico inevitavelmente simpático à presidente, com políticos da velha guarda usando sua derrubada como um recurso apaziguador dos ânimos públicos. Mas com um escopo tão limitado, era de se esperar que o documentário ao menos alcançasse alguma revelação micro ou verdade emocional nos momentos privados capturados em câmera. Com algumas exceções, as cenas exclusivas de reuniões e conversas ao celular são banais, os momentos mais marcantes restritos às sessões públicas já assistidas por quem acompanhou os procedimentos. Dilma aparece pouco, sua reação ao próprio ocaso uma incógnita.

O Processo é, de várias formas, um espelho do debate político atual: dados e contextualização são preteridos em favor de uma polarização demarcada mais por identificação estética e simbólica do que por discordâncias substanciais sobre políticas públicas. Plateias interessadas em entender esse acontecimento histórico e seus efeitos na crise institucional permanecerão no escuro: o filme dialoga apenas com a militância carente de retificação, se não no jogo político, ao menos na catarse coletiva de uma sala de cinema.