Estreia de Selton Mello na direção, “Feliz Natal” é uma feliz tristeza

Feliz Natal (2008) de Selton Mello

Durante a noite de Natal, acompanhamos o retorno de Caio (Leonardo Medeiros), ao seio da família. Irresponsável na adolescência, foi excluído naturalmente por uma família desestruturada, composta de um pai relapso, uma mãe viciada em remédios, a cunhada frustrada e um irmão introspectivo.

Esse é a trama de Feliz Natal (2008), a estreia de Selton Mello atrás das câmeras, na qual uma obra depressiva, que geralmente apenas entristece, consegue abrir novos e interessantes aspectos dramáticos de uma velha história.

Leonardo Medeiros dá dimensão à dor descomunal de ter, mas na verdade não poder contar com uma família. Darlene Glória nós dá muitos motivos para não querer ter uma mãe como ela, com tanto sofrimento e destempero. E mesmo amparada por uma personagem destrambelhada pelos remédios e álcool, sabemos que ela arrebentou. Até seu carinho pelo filho é depressivo. Destaque também para o sóbrio elenco de apoio, em especial Lúcio Mauro como um papai escroto.

Selton Mello imprime um estilo peculiar, com imagens cruas (e às vezes de câmera na mão), closes incomuns, ângulos estranhos e música desconexa em sua promissora (e diferente) estreia. Consegue fazer uma feliz tristeza, sem apelar para resoluções fáceis, no qual o convencional não tem lugar numa fotografia escura, bem no clima seco do longa.

Se os filmes americanos geralmente usam o Natal para recompor seus cacos familiares, Feliz Natal bate sem clichê, dó ou piedade. Um drama duro feito pedra, indicados para os mais fortes e inabaláveis corações diante de tanto sofrimento, psicológico e familiar.

INFORMAÇÕES ESPECIAIS: Selton Mello não atua em Feliz Natal (2008), mas além de dirigir, também co-escreveu o roteiro, produziu e co-editou o longa.

Crítica originalmente publicada na coluna Script do Jornal O Povo, em 03/06/2009.