“Ilha dos Cachorros” é uma bela fábula sobre os dias atuais

Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs, 2018) de Wes Anderson

Para os amantes dos pet dogs, esta é realmente uma animação imperdível e emocionante, que, apesar de ser ficção, amplia ainda mais a nossa noção do quanto esses animais são amorosos e fieis por mais que, muitas vezes, nós [seres humanos em geral] sejamos cruéis e insensíveis com eles. Mérito ainda maior é o fato de que a obra traz também reflexão política neste contexto atual em que observamos ideias fascistas e os interesses sombrios dos poderosos ganhando força.

Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs, 2017) de Wes Anderson, é a história do jovem de 12 anos, Atari Kobayashi, e cão dele, o Spots, na verdade, um cão de guarda que foi designado para fazer a proteção do garoto. Ambos se tornam muito amigos. Depois da morte dos pais, Atari passou a ser cuidado pelo tio, Kenji Kobayashi, prefeito de uma metrópole japonesa que ambienta o enredo. Até que a “febre do focinho” passa a contaminar os cachorros da cidade com o risco de que a doença canina possa contagiar também os humanos.

O Prefeito Kobayashi pretende então que todos os cães sejam enviados à Ilha do Lixo (o aterro sanitário da cidade) como forma de proteger os cidadãos do contato canino. A oposição, liderada pelo cientista Watanabe, é contra a medida e promete encontrar a cura para a febre do focinho em curto prazo. Contudo, a população, esquecida de quem é “o melhor amigo do homem” e alimentada pelo ódio aos cachorros, é intransigente em apoiar a determinação do Prefeito, que é rapidamente colocada em ação.  

Dessa forma, a saúde dos cachorros só é prejudicada devido ao destino cruel que lhes é imposto. Eles passam a sobreviver de restos de comida encontrada no lixo, precisando farejar entre dejetos e disputar por alimento. Nenhum cão é poupado de ser mandado à Ilha, inclusive o Spots, o que faz com que Atari embarque numa aventura para resgatar o amigo de quatro patas. A decisão do Prefeito, disfarçada de medida em defesa da população, esconde interesses bastante tenebrosos.

Ilha dos Cachorros ilustra como o fascismo se disfarça de bom moço e protetor para, na verdade, promover uma castração, e porque não dizer, uma limpeza de espécime. As passagens que mostram isso são recorrentes, como os momentos em que o Prefeito pede respeito à opinião que é diferente mas, ao mesmo tempo, perseguida. Ela é ouvida, mas não escutada. Apesar de ser uma animação, o filme tem cenas fortes, e a crueldade é uma marca bastante presente ao longo de toda a história.   

Ao contrário dos humanos, que basta serem atingidos para acharem que podem legitimar a segregação e até mesmo o ataque ao próximo; os cães, mesmo humilhados, em nenhum momento falam em ódio ou vingança a quem colocaram eles naquela situação. Mesmo aqueles mais raivosos, são mostrados como seres, no fundo, humildes e prestativos. E é dessa forma que o filme vai se revelando uma belíssima fábula sobre os dias atuais. Coincidentemente, sobre o Brasil de hoje.

Um defeito que precisa ser apontado é o recorrente uso de flashbacks, em vários momentos, o filme tem que explicar a si mesmo. Por exemplo, o causo de como Atari ficou órfão, isso já com a trama em desenvolvimento e, inclusive, o porquê do idioma diferente na fala dos personagens. Da forma que foi montado, a narrativa ficou atravancada, cansando o expectador com as idas e vindas para uma história que, na verdade, é bem simples e, justamente por isso, é bela.

Ilha dos Cachorros procura retratar como a nossa vida não passa de uma constante briga de cães e gatos. Wes Anderson é o diretor e um dos roteiristas da animação, a segunda da carreira dele. Além disso, responsável por obras bem sucedidas com O Grande Hotel Budapeste (2014), onde encontramos um roteiro com narrativa similar, porém mais adequado para o tipo do filme. A primeira animação do cineasta foi a peculiar O Fantástico Sr. Raposo (2009), de teor bem menos político.Os dubladores dos personagens formam um elenco de peso composto por Bryan Cranston, Liev Schreiber, Edward Norton, Bill Murray, Scarlett Johansson, F. Murray Abraham, Tilda Swinton, Greta Gerwig e conta ainda com a participação ilustre da artista plástica Yoko Ono.

O filme de Wes Anderson está apto a concorrer ao Globo de Ouro e Oscar de Melhor Animação. Contudo, levar a estatueta deverá ser mais difícil, pois terá que desbancar a preponderância de Os Incríveis 2 (2018).