Pré-continuação de ‘Alien’, “Prometheus” cumpre o papel de retomar a franquia

“No espaço, ninguém ouvirá seus gritos”. Tudo começou assim, em 1979, quando uma tripulação de sete se deparou com uma ameaça alienígena sem nome, no tenso e clássico Alien, O Oitavo Passageiro, que Ridley Scott que nos apresentou a heroína Tenente Ripley (Sigourney Weaver).

Era 1986, e um jovem de nome James Cameron se meteu em continuar uma história bem resolvida. “Dessa vez há mais. Dessa vez é guerra”. E a durona Ripley retornou ao seu maior pesadelo para uma épica aventura de ficção: Aliens – O Resgate. Era uma mamãe Alien contra uma Ripley materna, armadas e defendendo suas respectivas proles. Weaver conseguiu o feito de ganhar a nomeação ao Oscar de melhor atriz, um feito e tanto para um filme completamente fora do esquema Academia de Ciências e Arte de Hollywood. Não ganhou, mas ainda foi comemorado. E merecido.

“Em 1979, descobrimos no espaço ninguém pode ouvir você gritar. Em 1992, vamos descobrir, na Terra, que todos podem ouvi-lo gritar”. O tempo passou e um certo David Fincher estreava na direção de longas metragens num complicado, mas subestimando Alien 3 (1992). Confira a versão do diretor e deleite-se com a tensão bebida diretamente do original e alguma ação do segundo capítulo, mas acima de tudo uma história baseada na clássica jornada do herói de Joseph Campbell. “Tem acontecido há mais de 200 anos… O início está apenas começando”. Sim, em 1997, a partir do seu slogan assumiu-se o tom de capítulos de uma franquia no forçado Alien – A Ressurreição, com visual interessantíssimo (cortesia da visão criativa do francês Jean-Pierre Jeunet), mas de historinha que reciclava demais seus capítulos anteriores.

Mais ainda precisávamos de respostas. E Ridley Scott foi buscá-las em Prometheus (Prometheus, 2012), uma pré-continuação do seu clássico de 1979. A superprodução de ficção científica traz uma história original sobre um grupo de enviado ao espaço em busca de respostas sobre os possíveis criadores da vida. E exatamente por causa dessa expedição chegaremos a toda a origem de Alien.

Após descobrirem uma série de “mensagens” espalhadas pelo mundo, a Dra. Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e o pesquisador Charlie Holloway (Marshall-Green, boa surpresa) encontram um mapa que os levarão aos supostos ancestrais da raça humana. A viagem de expedição é obra da Corporação Weiland, coordenada in loco por Meredith Vickers (Charlize Theron, deliciosamente malvada) e supervisionada pelo andróide David (Michael Fassbender, perfeito, perfeito e perfeito). No comanda tripulação (de 17 no total) da nave Prometheus, o Capitão Janek (Idris Elba, sisudo e funcional).

As pistas são lançadas na condução do roteiro (de Jon Spaihts e Damon Lindelof – de Lost) e câmera de Scott, que passeia pela nave com David. Ao assistir Lawrence da Arábia e buscar referências visuais e de caráter, modificados pela guerra. Tudo que se vê, se fala e se percebe, é importante. Junte os pontos.

Um filme desse tamanho, com a carga histórica que carrega, tem muito mais chances de derrapar que der digno. Mas é muito mais que apenas uma aventura de ficção. Trata com carinho e importância merecida aos conceitos de Alien, com todo seu universo revisitado. O estilo da nave, os trajes e o modus operandi da viagem espacial, a Corporação Weiland, um androide na tripulação e outras que substituem tão bem a sensação do original.

Há uma espécie de cápsula de regeneração e várias sequências tensas pelos corredores e em especial numa cirurgia impactante. Ali testemunhamos o nascimento de uma nova e durona heroína, de nome Elizabeth Shaw. Palmas para Noomi Rapace. E não esqueçamos esculturas, esqueletos, armaduras e na espécie de cápsulas alienígenas. Tudo conversa visualmente com seu antecessor, e principalmente das originais figuras icônicas de H. R. Giger, desde 1979.

Se na mitologia, Prometheus foi um defensor da humanidade (responsável por roubar o fogo de Zeus e dá-lo aos mortais. Zeus o puniu com uma morte dolorosa), o filme planta perguntas filosóficas, e atende a uma essencial: a que os próprios humanos são as respostas para a existência dos Aliens. Há ainda experiências com mutação (David e a bebida alterada) e geração de novas espécies entre humanos e alienígenas. Na parte final, em seus contatos imediatos em busca da eternidade, a obra claramente mergulha para o suspense. E funciona com um 3D que não agride, e, não todo tempo, mas em várias sequências (principalmente com os hologramas), nos coloca dentro da ação, com profundidade e imersão.

Assim como sua protagonista que afirma “Eu não sei, mas foi o que escolhi acreditar”, Ridley Scott parece que não vai parar por aqui. Na busca por respostas, mais perguntas. E por isso mesmo aproveitem a viagem, mais uma vez tensa. Um espetáculo visual que equilibra substância, roteiro (que derrapada pouco) que apresenta o marco zero de uma história clássica e que retorna ao seu universo com uma sensação de missão cumprida. E com excelência técnica e elenco acima da média.

INFORMAÇÕES ESPECIAIS

Os mundos de Ridley Scott. Sci-Fi: Alien – O Oitavo Passageiro (1979); Blade Runner – O Caçador de Androides (1982); Perdido em Marte (2014);

Aventura épica: Os Duelistas (1977); 1492 – A Conquista do Paraíso (1992); Gladiador (2000); Cruzada (2005); Robin Hood (2010); Exôdo – Deuses e Reis (2014);

Aventura militarista: Até o Limite da Honra (1997); Falcão Negro em Perigo (2001);

Policial: Perigo na Noite (1987); Chuva Negra (1989); O Gângster (2007); Hannibal (2001); Rede de Mentiras (2008); O Conselheiro do Crime (2013);

Aventura dramática/Dramédia: Thelma & Louise (1991); Tormenta (1996); Os Vigaristas (2003); Um Bom Ano (2006);

Fantasia: A Lenda (1985);

Prêmios: indicado ao Oscar de direção, indicado ao Globo de Ouro de filme (drama) e direção por Gladiador; indicado ao Globo de Ouro de filme (drama) e direção por O Gângster; Indicado ao Globo de Ouro de filme (drama) e ao Oscar de filme e direção por Thelma & Louise; Venceu prêmio de melhor filme de estreia em Cannes por Os Duelistas; Indicado ao Oscar de direção por Falcão Negro em Perigo; Venceu o Globo de Ouro de melhor série de TV (drama) e indicado ao Emmy de melhor série de TV (drama) por The Good Wife (2009~);

Curiosidades (SPOILER ALERT): Cronologia ALIEN

Prometheus começa em 2089, se passa no espaço LV-223, e termina em 2094. A personagem Ellen Ripley (Sigourney Weaver) nasceu em 7 de janeiro de 2092 e em 2122 embarca como tenente de voo na nave Nostromo das empresas Weyland-Yutani. Na viagem que leva um carregamento de toneladas de minério de Thedus para a Terra, sua nave recebe uma transmissão não identificada vinda de LV-426, onde ocorre seu primeiro contato com o Alien. Ao sobreviver vaga 57 anos pelo espaço, sendo encontrada em 2177. Acorda e descobre a morte de sua filha, com então 66 anos, e retorna aos trabalhos na Weyland-Yutani numa missão de resgate com marines no LV-426. Após a missão, Ripley cai no planeta prisão Fiorina e acaba se suicidando em devido a estar infectada com o embrião rainha do Alien. No ano de 2380 aproximadamente, depois de 200 anos da sua morte, é ressuscitada e finalmente volta para o planeta Terra.

Publicado originalmente no O Povo Online/Jornal O Povo, em 22/06/2012 e atualizado na publicação do Clube Cinema em 06/05/2017.