
“Time and Water”: Ciência, ontologia e metafísica se misturam em clamor ecológico poético e introspectivo
Em meio às paisagens geladas da Islândia, o documentário acompanha um escritor que transforma arquivos pessoais em um gesto de resistência contra o esquecimento. Fotografias e filmagens antigas, registros sonoros, cartas e lembranças fazem parte de uma tentativa quase desesperada de preservar aquilo que se desfaz diante dos olhos. As geleiras recuam, familiares partem, o tempo avança sem pedir licença. O filme observa esse movimento com serenidade, como se perguntasse em silêncio o que realmente permanece quando tudo o mais se dissolve.
A narrativa constrói laços afetivos que se estendem além da esfera doméstica. A avó que foi a primeira mulher a voar no país surge como símbolo de pioneirismo e coragem. O avô, explorador das geleiras, encarna uma geração que tocava o gelo como quem toca o próprio futuro. Há ainda o peso simbólico de ser o último a nascer na antiga fazenda da família, marco de um ciclo que se encerra. Essas histórias não aparecem como curiosidades biográficas, mas como fios que conectam passado e presente, indivíduo e território, memória e matéria.
Ciência e contemplação caminham lado a lado. Dados sobre o desaparecimento das formações glaciais dialogam com reflexões sobre o ser e o tempo. A obra sugere que compreender a erosão do gelo é também encarar a fragilidade da existência humana. Recorda a inquietação de pensadores que perguntaram o que significa habitar o mundo, como se cada imagem carregasse ecos de uma meditação maior sobre presença e finitude.

Há uma dimensão metafísica que amplia o alcance do documentário. A água derretida não é apenas fenômeno físico, mas metáfora de transformação inevitável. As imagens das geleiras que desaparecem evocam a pergunta que atravessa o filme inteiro: o que acontece quando a paisagem que moldou uma identidade deixa de existir? Nesse ponto, a experiência se torna quase espiritual, pois convida o espectador a perceber os seres humanos como parte inseparável da natureza, não como observadores externos.
O resultado mistura ciência, ontologia e reflexão poética sem soar didática (sem ser palestrinha). A força está na combinação entre investigação racional empírica e sensibilidade literária. Não é apenas um alerta ecológico, mas uma meditação profunda sobre pertencimento. O filme transforma o desaparecimento das geleiras em espelho da condição humana, reafirmando que a história de uma família pode conter, em escala reduzida, a história de um planeta em transformação.





















