
Travis Knight, diretor e presidente da Laika Studios, gosta de repetir que “O Bosque Selvagem – Wildwood” (Wildwood, 2026) já tem idade para dirigir. Nos Estados Unidos, onde a carteira de motorista sai aos 16 anos, a piada faz sentido: foi há 16 anos que o cineasta e empresário leu o manuscrito ainda inacabado de Colin Meloy, vocalista dos Decemberists, que escrevia a história para ser ilustrada pela esposa, Carson Ellis.
Knight se apaixonou pelo texto na mesma hora e esbarrou num problema fácil de enunciar e difícil de resolver, que ele mesmo resume com “não sabia como fazer aquele filme”.
Agora o filme existe. Saí do cinema depois de assistir à melhor animação da minha vida e, por mais contraditório que pareça, desci as escadas da sala triste. O filme me deixou esperança; a tristeza veio de fora da tela, da sensação de que o público, infelizmente, já não vê diferença entre aquilo que levou dezesseis anos para ser feito e aquilo que leva 16 segundos para ser gerado.
Comecemos pelos 16 anos, porque eles explicam quase tudo. Knight conta que, depois de cinco longas, anunciou à equipe que finalmente estavam prontos e descobriu, com a produção já andando, que não estavam: a Laika precisou crescer, aprender e sofrer no processo até ficar à altura do que o livro pedia.

As filmagens começaram em 2021 e levaram cerca de cinco anos. O resultado são 231 bonecos, 136 cenários e mais de 142 mil rostos substituíveis, trocados quadro a quadro para que um personagem pisque, hesite ou sorria; com 132 minutos, é o stop-motion mais longo já feito, à frente do Pinóquio de Guillermo del Toro.
O grande barato do stop-motion é que nada em cena se move sozinho, e a batalha final deixa isso escancarado: são cerca de doze minutos e 411 planos, a maior sequência de combate já feita na técnica, com centenas de bandidos contra milhares de coiotes, numa escala em que a pergunta de como aquilo foi filmado se impõe a cada plano.
A fotografia é de Caleb Deschanel, seis vezes indicado ao Oscar e estreante no stop-motion, e talvez venha daí a impressão de que a câmera atravessa aquele bosque com a liberdade de um filme de atores. De um filme real. É impossível assistir à O Bosque Selvagem sem lamentar que hoje vivemos cercados de coisas feitas de qualquer maneira, sem esmero algum, e boa parte delas faz cada vez mais sucesso; a inteligência artificial generativa só acelerou um processo que já vinha de antes.
Knight tem sido direto sobre o assunto. Perguntado se a Laika usaria IA em seus filmes, respondeu com um palavrão e um não, e chamou a tecnologia de roubo, uma regurgitação de anos de criatividade humana que não tem humanidade nenhuma.

O diretor pode se dar ao luxo de dizer isso porque a Laika nunca dependeu da bilheteria para existir. A história começa lá em 1998, quando Phil Knight, co-fundador da Nike, entrou como investidor num estúdio de stop-motion de Portland, onde o filho, Travis, recém-formado, tinha ido trabalhar como estagiário.

Travis Knight virou animador, o estúdio afundou em dificuldades financeiras, e em 2002 o pai assumiu o controle da empresa, que em 2005 ganhou o nome de Laika (uma homenagem à cadela que a União Soviética mandou ao espaço em 1957). Hoje, Phil Knight preside o conselho, Travis é presidente e CEO do estúdio, além de diretor dos seus filmes mais ambiciosos, e os dois são os donos da empresa.
O dinheiro vem de do Knight pai desde o começo, e a paixão pelo stop-motion vem do Knight filho: foi a
aptidão do filho para a animação que levou o pai a investir. Coraline (2009) é o grande sucesso da Laika, arrecadando mais de US$ 188 milhões, contando relançamentos, para um orçamento de US$ 60 milhões.
Depois vieram resultados bem mais magros: Kubo e as Cordas Mágicas (2016) arrecadou cerca de US$ 76 milhões para um orçamento de cerca de US$ 60 milhões, e Link Perdido (2019) foi o pior resultado da história do estúdio, com US$ 26,6 milhões no mundo inteiro, pouco mais de um quarto dos quase US$ 100 milhões que custou, ainda que tenha levado o Globo de Ouro de melhor animação.
A Laika é uma empresa privada e não divulga balanços, então esses são os números que a imprensa reúne, mas bastam para ver o padrão. Com uma fortuna estimada em perto de US$ 25 bilhões, Phil Knight segue bancando o estúdio, e a Fortune resume o efeito: o apoio estável dá à Laika o privilégio de criar com menos pressão financeira.
O Bosque Selvagem custou US$ 100 milhões e estreou nos Estados Unidos com aproximadamente US$ 12 milhões, em terceiro lugar. Me entristece que um filme como esse dependa da fortuna de uma única família, num momento em que acreditar em qualquer coisa além do lucro parece cada vez mais difícil. Mas o que mais me entristece mesmo é que o público não liga.
Para além do parecer técnico, que precisa ser dito porque o filme é tecnicamente impecável, O Bosque Selvagem resolve um problema que costuma afundar produções desse tamanho. São mais de duas horas, um mundo com geografia, política e mitologia próprias e uma quantidade enorme de personagens, o tipo de escopo que tende a produzir figurantes intercambiáveis.
Aqui, quase ninguém é figurante. Bandidos, burocratas, aves e roedores entram em cena por poucos minutos, às vezes segundos, e saem com um jeito próprio de falar e de ter medo; fazia muito tempo que eu não via isso. A exceção são os coiotes, quase todos iguais, à parte Dmitri, o soldado covarde dublado por Charlie Day no original. Mas, talvez não seja descuido: eles formam um exército, e o uniforme existe para apagar quem está dentro dele.
No fundo, acho que o filme fala sobre instinto. Os animais do bosque usam roupas, ocupam cargos e falam como gente, e mesmo assim, de tempos em tempos, cedem à própria natureza. Há uma cena em que Prue foge do cachorro que trabalha como guarda-costas e, no meio da perseguição, joga uma bolinha e pergunta se ele vai pegar; ele faz uma cara de deboche, como quem não vai cair naquela, e vai buscar.

É uma piada, e funciona como piada, mas ela se repete com outros bichos ao longo do filme e acaba virando um lembrete de que, debaixo do uniforme, eles continuam sendo animais. O mais interessante é perceber que o filme estende esse lembrete aos humanos. Alexandra, a vilã dublada por Carey Mulligan no original, comanda os coiotes e os corvos, e a sequência de abertura, sem uma palavra, mostra a perda que a levou até ali; tudo o que ela faz depois nasce de um impulso de mãe que não aceitou o luto.
Prue, do outro lado, atravessa uma floresta proibida atrás do irmão sequestrado. As duas são movidas pela mesma força, e o que separa uma da outra é até onde cada uma está disposta a ir para conseguir o que quer.
O próprio Knight diz que o que o manteve preso à história durante todos esses anos foi algo primitivo, o amor e até onde iríamos por ele, e o filme tem a coragem de mostrar esse impulso na heroína e na vilã ao mesmo tempo. Fora da tela, a mesma pergunta encontrou uma resposta semelhante: foram dezesseis anos sustentados por um pai disposto a ir longe pela paixão do filho.
Foi daí que veio a minha esperança. O Bosque Selvagem é épico, tem batalha, sangue e uma vilã assustadora, e ainda assim se recusa a dividir o mundo entre bons e maus com a régua de um conto de fadas. Nem tudo é tão preto no branco assim, e que bom é quando um filme consegue e pode dizer isso com delicadeza para quem tiver paciência de olhar.
Quanto ao público, talvez seja questão de tempo. O filme levou 16 anos para ficar pronto e, segundo o próprio diretor, já tem idade para dirigir; resta saber quantos de nós vão aceitar a carona.






















