Hamnet – A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, 2025) de Chloé Zhao, e baseado no romance de Maggie O’Farrell, é uma ficção histórica sobre o relacionamento de William Shakespeare (Paul Mescal) e sua esposa, Agnes (Jessie Buckley), e o impacto da morte na família, e como ela reverbera em uma peça do dramaturgo.

Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme (Drama) e Melhor Atriz (Drama), para Jessie Buckley, o drama produzido por Steven Spielberg concorre também à oito estatuetas no Oscar 2026 (Melhor Filme; Direção – Chloé Zhao; Atriz – Jessie Buckley; Direção de Elenco; Roteiro Adaptado; Direção de Arte; Figurino; e Trilha Sonora Original.
Se for assistir, não esqueça de levar o lenço, pois é certo que lágrimas irão brotar, tamanha emoção, de resultado final tão brutal quanto belo. Explorando os temas da perda e da morte, Hamnet acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderoso que inspirou a criação da peça Hamlet.
Lista em perspectiva – William Shakespeare na Cinema e TV
Mas para além de Hamnet (2025), o cinema e a TV reinterpretaram algumas vezes William Shakespeare ao longo das décadas, acompanhe a evolução da imagem de Shakespeare nas telas:
Décadas de 1900 a 1970 – O gênio literário clássico
– Tanto o filme mudo, The Life of Shakespeare (1914) – também conhecido como Loves and Adventures in the Life of Shakespeare -, quanto a minissérie em seis episódios, Will Shakespeare (1978), apresentam o escritor e dramaturgo como figura monumental, quase mitológica. O foco está em sua genialidade e contribuição cultural, refletindo a exaltação do seu nome na História/Contexto Cultural e o reforço de valores tradicionais.

Década de 1990 – O romântico apaixonado
– Shakespeare Apaixonado (1998) de John Madden: vencedor de sete Oscar, incluindo Melhor Filme em 1999, mostra um Shakespeare jovem, vulnerável e inspirado pelo amor. Essa visão dialoga com o espírito dos filmes dos anos 90, marcado por produções que misturavam história e romance.
Aqui o foco foi criar uma aproximação de figuras históricas do público por meio de narrativas emocionais, mais especificamente da comédia romântica formulaica. O resultado foi um grande sucesso de bilheteria, com um orçamento de US$ 25 milhões, alcançou quase US$ 300 milhões em arrecadação global. No papel de William Shakespeare, temos Joseph Fiennes.
Anos 2000 – O enigma e a controvérsia
– A Waste of Shame: The Mystery of Shakespeare and His Sonnets (2005) de John McKay: no filme para TV, como bem diz o subtítulo, acompanhamos os mistérios pessoais e como eles reverberam em seus sonetos, e traz Rupert Graves interpretando William Shakespeare.

– Anônimo (Anonymous, 2011) de Roland Emmerich: anos-luz dos filmes de ficção-científica e desastres em larga escala que lhe são usuais, o diretor alemão aponta sua narrativa em teorias alternativas sobre autoria, mais especificamente em uma teoria de que foi de fato Edward De Vere (Rhys Ifans), conde de Oxford, quem escreveu as peças de Shakespeare (Rafe Spall).
Tendo como pano de fundo a sucessão da Rainha Elizabeth I (Vanessa Redgrave) e a rebelião de Essex contra ela, o drama com toques de suspense reflete uma era de ceticismo e revisionismo histórico, em que o público buscava questionar narrativas oficiais e explorar conspirações. Controverso, polêmico e interessante, tem a ousadia final de deixar a decisão de acreditar ou não com o espectador.
Anos 2010 – O homem envelhecido e melancólico
Shakespeare’s Mother: The Secret Life of a Tudor Woman (2015): Documentário para a BBC (TV inglesa), em que Michael Wood narra a extraordinária história de uma mulher comum em tempos de revolução.
Nascida durante o reinado de Henrique VIII, Mary Arden é filha de um fazendeiro de Warwickshire, mas casa-se com um homem da crescente classe média Tudor em Stratford-upon-Avon, onde ascende a uma nova vida. Lá, ela tem oito filhos, três dos quais morrem jovens. Seu marido torna-se prefeito, mas vai à falência devido a negócios escusos. Diante da ruína financeira, da perseguição religiosa e das intrigas políticas, a família é o elo que os mantém unidos até serem resgatados pelo bem-sucedido filho mais velho de Mary: William Shakespeare.
Disponível gratuitamente no Youtube, clique aqui para assistir.

– A Pura Verdade (All Is True, 2018) de Kenneth Branagh: Aos olhos de um cineasta e ator da escola shakespeariana, acompanhamos uma abordagem mais intimista e reflexiva, sobre os últimos anos de Shakespeare. A história é marcada por perdas, como o incêndio do Globe Theatre, e a decadência do dramaturgo, com um tom encharcado de proximidade que mostra a vulnerabilidade humana por trás da tal grande figura inglesa.
Além de dirigir, Kenneth Branagh dá vida à William Shakespeare, autor que ele mesmo já adaptou com sucesso no cinema com Henrique V (1989), Muito Barulho Por Nada (1993) e Hamlet (1996), além das comédias Amores Perdidos (2000), Como Você Quiser (2006) e Sonhos de uma Noite de Inverno (1995), este último que usa a montagem de uma peça de Shakespeare como pano de fundo.
Anos 2020 – O pai em luto e humano
– Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025) traz Shakespeare como homem comum, devastado por uma tragédia em sua família. O drama de Chloé Zhao enfatiza a dor pessoal e o trauma familiar, privilegiando uma narrativa emocional, tão dolorosa quanto bonita.
O resumo de sua trajetória nas telas
Essa trajetória mostra como Shakespeare funciona como espelho cultural, adaptado às sensibilidades de cada geração. Da tradicional cinebiografia que o retrata como um gênio literário clássico, passando por um jovem ambicioso e criativo, um amante apaixonado e inspirado a um poeta introspectivo, ou uma figura controversa, quase impostora.
Até chegar em um homem envelhecido e melancólico, e finalizar como primeiro como um pai em luto, onde é particularmente relevante por trazer uma abordagem que mostra Shakespeare como homem marcado pela dor familiar, não apenas como ícone cultural.





















