
Com oito indicações ao Globo de Ouro 2026 – Melhor Filme (Drama), Filme Estrangeiro (Noruega), Direção (Joachim Trier), Atriz-Drama (Renate Reinsve), Ator Coadjuvante (Stellan Skarsgård), Atriz Coadjuvante (Elle Fanning), Atriz Coadjuvante (Inga Ibsdotter Lilleass) e Melhor Roteiro – “Valor Sentimental” (Sentimental Value, 2025) de Joachim Trier é uma obra-prima, um verdadeiro mergulho na dor e na memória.
Na trama, as irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleass) e o pai (Stellan Skarsgård), um cineasta renomado, tentam se reaproximar. Ele inclusive usa de um novo e possível último projeto da carreira para facilitar essa reaproximação, ao oferecer o papel principal à Nora. É aí que entra em cena uma estrela de Hollywood (Elle Fanning), que acaba ficando com o papel. No meio de todo esse mar de sentimentos, enquanto a atriz americana se insere nessa complexa dinâmica familiar de afetos mal resolvidos e feridas antigas, a narrativa cruza laços familiares e a arte.
Diretor e co-roteirista, Joachim Trier, conhecido por sua sensibilidade em retratar personagens em crise existencial (A Pior Pessoa do Mundo, 2021), aqui se aprofunda no terreno mais íntimo: o luto e a tentativa fracassada de reconexão familiar. Sim, estamos diante de um drama que se constrói sobre o vazio deixado pela ausência e pela impossibilidade de reparar laços quebrados.
Mas o tal “Valor Sentimental” tem mais camadas, incluindo o peso de uma perda significativa e dolorosa. A morte da esposa, por suicídio, não é apenas um evento passado — é uma presença dramática que permeia em cada gesto do pai cineasta. Para além disso, a trama se passa na mesma casa em que a mãe partiu, fincando ainda mais o peso dessa dor, e a própria casa acaba virando um personagem da obra.
E assim, o filme mostra como o trauma não se dissolve com o tempo, mas reverbera em cada tentativa de aproximação com a filha mais nova. O espectador é confrontado com a impossibilidade de elaborar plenamente a dor, e com o modo como ela contamina relações futuras.

Na tela, pai e filha são como espelhos quebrados, e com um paradoxo: o pai é consagrado por filmes sensíveis, mas que não consegue ser sensível com o que restou da sua família. O artista busca na criação cinematográfica uma forma de se aproximar da filha, também atriz. Mas Trier expõe a ironia cruel: a arte, que deveria unir, aqui evidencia a dor, o sentimento quebrado como um cristal, impossível de ser colado de volta. Pode ser refeito? Sim, mas nunca jamais como era antes.
Joachim Trier venceu a Palma de Ouro em Cannes pelo belíssimo A Pior Pessoa do Mundo (2021), que também o levou a concorrer ao Oscar de melhor roteiro original (ao lado de Eskil Vogt), mas com “Valor Sentimental” ele consegue se superar e sua história se apresenta como uma experiência tão poderosa quando dolorosa.






















