Dia #1 – Semana Internacional da Crítica – Festival de Veneza 2026
Il Grande Giaffa (Itália, 2026) de Marco Santi
O cinema sempre nutriu uma fascinação quase magnética pela ideia do duplo, do sósia e da farsa sobre identidades trocadas. Trata-se de um dispositivo narrativo riquíssimo, capaz de transitar com extrema facilidade entre a leveza da comédia e a tensão do thriller. No filme italiano Il Grande Giaffa (Itália, 2026), esse artifício ganha contornos de uma afiada sátira comportamental ao focar na trajetória de um homem comum de meia-idade (Roberto Zibetti), cuja rotina é marcada pela apatia e pela falta de alegrias. Ao assumir acidentalmente a persona de um prestigiado e egocêntrico ator de teatro de sucesso, o protagonista se vê tragado por uma noite frenética de mal-entendidos, encontros improváveis e loucuras divertidas.
A premissa do longa italiano que marca a estreia do diretor Marco Santi não surge no vácuo, inserindo-se em uma longa e gloriosa tradição cinematográfica que utiliza a substituição de figuras públicas ou celebridades por pessoas desconhecidas para criticar as aparências e a artificialidade da fama. No terreno da comédia e da sátira, colocar um cidadão comum no pedestal de uma estrela costuma expor tanto o absurdo das elites quanto a genuína humanidade do indivíduo simples. É um caminho trilhado por clássicos inesquecíveis, como O Grande Ditador (1940), onde Charlie Chaplin usou a incrível semelhança entre um ingênuo barbeiro judeu e um tirano fascista para entregar uma das maiores lições de humanismo e crítica política da sétima arte.

Dessa mesma fonte cômica beberam obras como no incrível Dave – Presidente por um Dia (1993), ao retratar um homem empático assumindo a liderança dos Estados Unidos no lugar do governante oficial, e a comédia francesa A Dupla (2018), que explorou a exaustão do estrelato quando um ator egocêntrico decide trocar de vida com o seu dublê de corpo. Em Il Grande Giaffa, esse tom cômico faresco vem de encontro ao sentimento de satisafação social durante uma caótica jornada noturna vivida pelo protagonista. É aquele tipo de sabor de ver alguém que sempre “perde” na vida, virar o jogo por uma decisão inconsequente.
A graça da obra reside justamente no contraste doloroso e divertido entre a insignificância da antiga rotina do homem, que incluem humilhações constantes no trabalho, onde seu chefe é também seu sogro, com a sedutora possibilidade de ser admirado através dessa “máscara” da celebridade. A troca de lugar com o virtuoso artista não apenas gera sequências tipo pastelão e diálogos desconcertantes, mas também funciona como um espelho psicológico, provocando o público a questionar até que ponto precisamos fingir ser outra pessoa para finalmente nos sentirmos vivos. Mas a que ponto essa ilusão será válida para ele?
O apelo desse tropo é tão universal que transborda os limites do riso, encontrando espaço crucial em narrativas dramáticas e de suspense. O cinema de época e de ação já demonstrou essa versatilidade em produções como O Homem da Máscara de Ferro (1998), focado na conspiração para substituir o cruel Rei Luís XIV por seu irmão gêmeo secreto, ou no visceral O Dublê do Diabo (2011), que adotou um tom sombrio e tenso ao retratar a história real do soldado forçado a ser o sósia de corpo do sádico filho de Saddam Hussein.

Voltando ao nosso ponto cômico, o filme de abertura da Semana Internacional da Crítica do Festival de Veneza (fora da competição), demonstra por que a premissa do sósia permanece atemporal. Il Grande Giaffa usa a farsa e a confusão de papéis não apenas como motor para risos genuínos ao longo de uma noite fora de controle, mas como um comovente estudo sobre a redescoberta da vitalidade na meia-idade. Marco Santi, obrigado pela divertida dramédia italiana.






















