
“Toy Story 5” (2026) de McKenna Harris e Andrew Stanton
Depois da despedida praticamente perfeita de Toy Story 3 (2010), parecia que a franquia já havia cumprido seu papel. O terceiro filme atingiu um raro equilíbrio entre aventura, humor e (mais ainda) de emoção, encerrando a jornada daqueles personagens com uma maturidade surpreendente. Mas o mercado comercial cinematográfico é implacável, e foi justamente por isso que Toy Story 4 (2019) soou tão deslocado e desnecessário: uma continuação que forçava uma nova aventura para Buzz e Woody sem que houvesse uma história que se justificasse, demonstrando ser um capítulo que parecia existir apenas porque a marca precisava continuar (e vender).
Corta para 2026, e estamos diante da quinta parte da franquia: “Toy Story 5”. Inevitável, diria o próprio mercado, mas para alívio do público que cresceu amando as aventuras de Woody, Buzz e sua turma de amigos/brinquedos, a aventura se sustenta muito bem. Digo com uma grande surpresa, e reconheço, assim como os próprios produtores, ainda que indiretamente, que o novo capítulo faz uma admirável correção de rota.
Explico.
Em vez de insistir nos mesmos conflitos existenciais dos brinquedos sendo repassados de dono a dono e suas substituições, em busca de novas emoções, o filme encontra um novo caminho para a série ao escolher bem o cerne da sua história: ter um tablet como vilã, e traz à tona o tema atualíssimo do poder hipnótico das telas para com nossas crianças.

O roteiro, elaborado pelo craque Andrew Stanton (Wall-E, 2008; Vida de Inseto, 1998) e McKenna Harris (duo que dirige também o filme), primeiro acerta na batalha contra as telas. Segundo que, apesar do componente da nostalgia com a dupla Woody e Buzz, decide reposicionar seus ícones e coloca a dupla como coadjuvantes da história, funcionando muito bem como figuras de apoio. E terceiro, passam o protagonismo para a vaqueira Jessy, dando um brilho feminino inédito para a vaqueira, que assume a responsabilidade de liderar uma história inédita. É uma escolha inteligente, que renova o universo da franquia sem abrir mão de sua identidade.
Voltando ao ponto principal da história, abrindo diálogo com questões muito atuais. Ao transformar as telas — especialmente os tablets — em uma espécie de “vilão silencioso”, a narrativa propõe uma reflexão delicada sobre a infância contemporânea. As crianças de hoje parecem cada vez mais conectadas aos dispositivos eletrônicos e menos interessadas não apenas em brinquedos físicos, mas em brincadeiras de rua, nos quintais das casas ou mesmo nos espaços dos condomînios.

Seu roteiro alterna momentos de ação, humor e emoção com naturalidade, criando uma experiência leve e envolvente para diferentes gerações. Há um prazer evidente em reencontrar esses personagens, mas também em descobrir novos caminhos para eles.
Até mesmo a dinâmica entre Buzz e os demais personagens ganha contornos curiosos e bem-humorados, com o patrulheiro espacial assumindo uma postura menos heroica e mais vulnerável (algo como um hétero afeminado, nos dias atuais), frequentemente guiado pelas decisões das figuras femininas da história. É um detalhe que rende boas situações cômicas e reforça a renovação das relações dentro da franquia.
Importante ressaltar que, no fim das contas, “Toy Story 5” sabe do seu próprio tamanho (e propósito), é, acima de tudo, uma aventura divertida e aceita seu papel como um recomeço. Sim, uma tentativa sincera de recolocar a série nos trilhos depois de um quarto capítulo que parecia ter perdido a razão de existir. Afinal, a franquia Toy Story em uma das mais importantes da história da animação. E a Pixar sabe bem que, apesar de ser um grande produto, confiar na força de seus personagens e de suas emoções mostra que ainda há histórias que valem a pena ser contadas.























