
Michael (2026) de Antoine Fuqua
Assistir a “Michael” em formato IMAX não é apenas uma experiência cinematográfica; é um conceito. Existe hoje um abismo nítido entre a crítica especializada e a percepção do público, e após mergulhar nessa obra, entendo que esse distanciamento nasce da incapacidade de muitos em ler as entrelinhas. Onde alguns viram “raso”, eu vi uma complexidade latente, construída através de um brilhante foreshadowing.
O filme utiliza uma fórmula que remete ao sucesso de Bohemian Rhapsody, celebrando o gênio e a trilha sonora que moldou gerações, inclusive a minha, já que meu amor pelo cinema de terror nasceu ali, com o impacto visual de Thriller. A performance de Jaafar Jackson é um destaque absoluto, poucas vezes vi um mimetismo tão fiel e orgânico. Em certos momentos, a semelhança física e a energia são tão viscerais que esquecemos que é uma atuação.
No entanto, o brilho das sequências de show e a “camada de ouro” do ídolo pop não escondem a “camada de vidro” do ser humano. O filme é corajoso ao plantar sementes, o foreshadowing, de todas as consequências trágicas que viriam depois.

O roteiro não precisa ser expositivo para nos mostrar o trauma: ele está lá, na infância roubada, no isolamento de um menino negro que nunca teve amigos da mesma idade e que foi moldado sob a mão de ferro de um pai que ele enxergava como o próprio Capitão Gancho.
A obra explora a dualidade de um homem que se inspirou no mistério de Greta Garbo para criar sua persona, mas que, por dentro, era uma criança destruída que se recusava a crescer. Sua obsessão pela infantilização e a criação de Neverland não surgem do nada, são sintomas de um humano quebrado tentando recuperar o que lhe foi tirado. O filme humaniza o mito sem ignorar suas sombras, deixando as peças arrumadas para entendermos o peso do isolamento e da busca frenética pela perfeição estética.
Para quem se permite ver além do espetáculo, “Michael” é tão complexo quanto o homem que ele retrata. É uma homenagem digna ao maior artista de todos os tempos, mas também um retrato melancólico de como o mundo pode ser cruel com quem é diferente. Na minha visão, um filme cinco estrelas.























