
Obsessão (Obsession, 2026) de Curry Barker
Sinopse: Quando um romântico incurável faz um pedido para que sua paixão de longa data se apaixone por ele, um encantamento sinistro se desencadeia.
Crítica: Existe algo profundamente revigorante em testemunhar um filme como Obsessão funcionar com tamanha precisão operando sob uma premissa tão básica. O diretor e autor do roteiro original Curry Barker entrega aqui mais uma prova de que o horror não precisa, necessariamente, tentar reinventar a roda para ser devastador, muitas vezes, o segredo mora puramente no domínio da tensão, na manipulação do desconforto e naquela sensação de inevitabilidade que vai nos sufocando aos poucos.
O roteiro resgata a clássica história do “cuidado com o que você deseja”, mas o transporta para um terreno de angústia psicológica raramente visto. O clima de que algo está completamente errado se estabelece no exato instante em que o protagonista faz o seu desejo, e a agonia do filme reside justamente em ver os personagens caminharem, lúcidos ou não, em direção ao abismo. É um horror que se recusa a dar o alívio da surpresa barata, preferindo nos manter reféns da expectativa do pior.

É impossível não notar que o diretor pôde se referenciar com obras do gênero, como Hereditário (2018), Atividade Paranormal (2007) e, principalmente, nos mais recentes Fale Comigo (2022) e Faça Ela Voltar (2025).
Mas obviamente não estamos falando de plágio, e sim um curador de influências. Ele absorve essa gramática visual e a cospe de volta com uma identidade própria, muito calcada em um trabalho de sombras impecável, que esconde mais do que revela. Os enquadramentos e movimentos rápidos ao fundo são pensados para gerar um desconforto antes mesmo de qualquer ameaça se materializar, tudo amarrado por uma edição e trilha sonora que sabem exatamente quando esticar a corda da tensão.
No entanto, nada disso se sustentaria sem o trabalho monumental da atriz Indie Navarrette (Nikki) e do ator Michael Johnston (Bear) à frente da tela. Eles não apenas interpretam; eles carregam o peso emocional de uma narrativa que se desdobra em dois planos: existe o horror mais evidente que ele enfrenta, junto com um profundo dilema moral, e há aquele silêncio perturbador na história dela, uma camada mais sutil sobre manipulação, consentimento e a forma doentia como a obsessão pode distorcer a ideia de amor.
O filme entende que o medo mais genuíno não vem de uma entidade sobrenatural (que ninguém faz questão de explicar) mas da deterioração moral e psíquica dos personagens principais. Para bagunçar nossa cabeça com gosto.
Curry BarkerO sucesso artístico dessa produção é fruto da mente de um cineasta que lapidou seu timing visual com curtas de sucesso no YouTube e depois um longa independente (Mike e Serial, 2024). E assim abriu portas que pareciam intransponíveis, após curtas de sucesso: o roteirista e diretor Curry Barker foi o escolhido para assumir o próximo capítulo de uma das franquias mais icônicas do gênero: o reboot de O Massacre da Serra Elétrica (Texas Chainsaw Massacre). Ver um diretor sair da internet para comandar Leatherface é o selo de validação que sua técnica merecia.
Veredito
No fim das contas, Obsessão (2026) é mais do que um simples exercício de gênero, é um mergulho sem volta nas zonas cinzentas da nossa própria moralidade. É o tipo de terror que se recusa a ir embora quando a tela escurece, deixando um rastro de desconforto que você vai carregar por muito tempo após o fim da sessão. Na minha avaliação, quatro estrelas de cinco, uma ótima surpresa.























