“Dia D” (Disclosure Day, 2026) de Steven Spielberg
Prestes a completar 80 anos, Steven Spielberg promove seu retorno aos ‘filmes de alienígenas’ em “Dia D” (Disclosure Day, 2026) com o mesmo deslumbramento e até uma certa ingenuidade de um então jovem cineasta que descobriu que não estávamos sozinhos por duas vezes. Primeiro dividiu o espanto com o público ao se deparar com seres de outro planeta, em Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977). Depois, se entregou ao olhar infantil de uma história de amizade interplanetária, com E.T. O Extraterrestre (1982).
Nas duas ocasiões, concorreu ao Oscar de direção. E houve até uma terceira oportunidade de “encontro” com UFOs, mas o caso de Guerra dos Mundos (2005) era completamente diferente. Se trata de uma refilmagem enxarcada de medo, angústia, cinismo e paranoia, mesmo que o núcleo ‘família’ fosse o combustível para o protagonista.

Voltando para o novíssimo “Dia D”, a trama parte quando, durante uma transmissão ao vivo, uma meteorologista (Emily Blunt) é pronto de comunicação para um possível contato extra terrestre, e que não se apresenta como um monstro, mas como um fenômeno que desafia a compreensão humana, e faz o público mergulhar na incerteza do que está por vir.
Para o bem e para o mal, a nova produção de Steven Spielberg tem muito da essência dos seus outros filmes citados acima, e parece até uma segunda parte de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), como se nos deparássemos com os desdobramentos do controle americano sob a descoberta de alienígenas.
A história original do próprio Spielberg é simples, e para transformá-la numa movimentada matiné, o cineasta contou com a parceria usual de David Koepp (Jurassic Park 1 e 2, 1993-97; Guerra dos Mundos, 2005; Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, 2008). O roteirista não apenas explora os temas de fé e o fim do mundo, mas os insere na narrativa ao guiar o espectador por um caminho tortuoso e acidentado, mas carregado de esperança.
O filme entrega sequências de ação bem elaboradas, mas mesmo com grandes fugas e algum suspense – que nos exige alguma suspensão de descrença – o diretor não perde de vista o tom emocional e insere alguma tensão existencial nos seus dois protagonistas (a meteorologista e o matemático), ambos com dons especiais, evitando que o espetáculo visual se torne mero artifício pirotécnico.
O elenco principal apresenta um quarteto talentoso. Emily Blunt está no centro da trama como a moça do tempo, e entrega uma performance que oscila entre o desespero racional da ciência e a aceitação quase religiosa do inexplicável. Josh O’Connor (o hacker em fuga) confronta a autoridade em busca da verdade, mesmo sem saber como chegar lá. Colin Firth personifica a figura da ameaça, e é alguém que acredita que está protegendo o mundo enquanto mantém um segredo. E o excelente Colman Domingo é um facilitador que escolheu carregar a esperança consigo, e tenta dividir essa crença com seus parceiros de cena.
Spielberg claramente quer apresentar a sua crença como uma forma de se comunicar com o seu público, o fazendo refletir sobre o que significa esperança diante de um possível apocalipse ou um recomeço para a humanidade. Vejo também que o filme não surpreende com um possível “grande segredo”, e infelizmente reduz o contato com a vida extraterrestre ao controle norte americano. Mesmo que o mistério seja um convite à reflexão, fica muito claro que o otimismo, então, não é mais um alívio, mas uma escolha ativa.
Além do roteirista, Spielberg traz outros parceiros usuais atrás das câmeras. John Williams, na trilha sonora, entrega uma composição que equilibra entre o épico e o íntimo, mas nunca triunfante. Já o diretor de fotografia Janusz Kamiński cria composições que reforçam o isolamento dos personagens. A luz é usada de forma simbólica, como a luz artificial dos laboratórios, ou a luz desconcertante dos fenômenos inexplicáveis.

Em “Dia D”, Spielberg continua maravilhado com o possível contato com seres de outro mundo. Mas, além do contraponto espiritual, quando a fé que se perdeu pode ser reencontrada em outro lugar, por um instante, o cineasta nos convida a questionar se estamos mesmo diante do fim do mundo ou de um recomeço desconhecido.























