Dia #3 – Semana Internacional da Crítica – Festival de Veneza 2026
Our Share of Sand (Índia/Reino Unido/Grécia, 2026), de Shalini Adnani
Escolher como narrativa uma luta de classes – geralmente desigual – requer tato, sensibilidade e tenacidade. Tato para mostrar todos os lados da moeda; sensibilidade para tratar de dramas sérios com dignidade; e tenacidade para nos inserir não apenas na história, mas no próprio ambiente, deixando clara a situação e nos mantendo a par dos acontecimentos. O que nos traz ao ótimo drama Our Share of Sand (Índia/Reino Unido/Grécia, 2026), de Shalini Adnani, filme que está na competição oficial da Semana Internacional da Crítica do Festival de Veneza.
Acompanhamos a jovem Maya (Maya Mehta), de 12 anos, que acaba de retornar à Índia com a mãe para reencontrar o pai, o industrial Rohan (Mohammad Zeeshan Ayyub), um empresário do setor de extração de areia. Porém, após testemunhar um acidente de trabalho, ela precisa escolher entre a lealdade à família e a verdade por trás de um sistema de silêncio e exploração.

O que se segue é uma história forte, contada sob a perspectiva de uma pré-adolescente. É através de suas transformações internas que acompanhamos essa dura luta de classes. Por se tratar do ponto de vista de alguém ainda em formação social, emocional, moral e em descoberta do seu senso de justiça, a percepção humanística eleva ainda mais o tom da obra.
A fotografia reverbera os sentimentos contrastantes entre a poeira/miséria do campo de extração e a limpeza/conforto da casa da família de Maya, ressaltanto visualmente as difirenças sociais. E ponto também para a atuação da jovem Maya Mehta, que passa muitas vezes a emoção com olhares e silêncios.

Existem dois pontos abordados que tornam a situação ainda mais dolorosa em Our Share of Sand. Primeiro, o fato de esse tipo de acidente ser brutal, mas tratado de forma banal e rotineira no setor extrativista. Segundo, os diálogos contundentes sobre o que exatamente sustenta a ascensão daquela família, que parecem facilmente aplicáveis não apenas à Índia contemporânea, mas a qualquer país marcado por esse tipo de relação predatória entre patrão e empregado.






















