A Odisseia (The Odyssey, 2026) de Christopher Nolan
Após a Guerra de Troia, Odisseu (Matt Damon) enfrenta uma perigosa jornada de volta para Ítaca, encontrando criaturas como o Ciclope Polifemo, as Sereias e Calipso pelo caminho. À primeira vista (ou lida), essa sinopse mais parece uma grande aventura mágica pela mitologia grega. Porém, não é exatamente o que vamos ver no novo épico do diretor vencedor do Oscar de Melhor Filme e Direção por Oppenheimer (2024).
Adaptado da obra Ilíada e a Odisseia, de Homero, a versão de Christopher Nolan para a A Odisseia (2026) entrega uma obra que, à primeira vista, impressiona pela beleza plástica e pela força de sua direção. A câmera imprime vigor e potência, mesmo quando o roteiro se aventura por territórios oníricos inspirados na mitologia grega. Ainda assim, o cineasta insiste em manter tudo no campo do real, o que, paradoxalmente, acaba por reduzir o impacto emocional da narrativa. Contudo, em se tratando de uma aventura-épica-dramática dessa proporção, com tamanha musculatura e magnitude (de elenco, e em seus aspectos técnicos), os olhos não brilharam. Por isso, o sentimento real que fica não é exatamente o da comoção, mas sim a ausência de uma grande emoção (mesmo com claras tentativas e oportunidades).
O roteiro, também assinado por Nolan, ousa ao fragmentar a história em diferentes tempos, todos convergindo para um mesmo destino. Essa estrutura ambiciosa, porém, não encontra ressonância plena. Sequências que deveriam ser memoráveis — como o Cavalo de Troia, mostrado em dois grandes momentos distintos; o confronto com Polifemo, o gigante canibal de um olho só, filho de Poseidon; os gigantes de aço da floresta; a passagem pela cabana da feiticeira Circe; a luta contra os mares amaldiçoados; e o desafio final de Penélope, que termina numa batalha sangrenta — são bem urdidas, mas carecem de intensidade. Tem suas sequências são arregimentadas para se tornarem épicas, são grandiosas, mas sem nunca se tornarem memoráveis. Podemos dizer que são momentos quase inesquecíveis, que ensaiam, mas não chegam a provocar o arrebatamento claramente proposto.

A mitologia, embora constantemente evocada, nunca se materializa em sua plenitude. Zeus é citado, Poseidon é a invisível força regente dos mares, há duas aparições de criaturas míticas, o Inferno de Hades, mas o poder dos Deuses parecem sempre ficar à espreita sem nunca eclodir, e ficamos diante de sombras de um universo que deveria ser mágico. Charlize Theron como Calipso e Zendaya como Atena são os maiores exemplos dessa abordagem. Seus personagens míticos são esvaziados de encanto, reduzidos a presenças quase banais. O ultra realismo imposto por Nolan sufoca o aspecto fantástico, transformando o mito em alegoria sem magia, e algumas falas em discursos fáceis.
O elenco também é grandioso, em forma e números. Repleto de nomes estrelados, contudo não entrega resultados tão estrelados assim, e tem notas desiguais.

Anne Hathaway é o grande destaque como Penélope, transmitindo dor e esperança na espera pelo retorno de Odisseu durante 20 anos. Matt Damon percorre bem a jornada vigorosa e sofrida do herói, com seu ponto alto na sequência do Cavalo de Troia, e num grande arco emocional é corroído pela dor de ver uma cidade tomada por ódio e chamas. Robert Pattinson é a representação precisa de um misto de covardia e traição em formato de gente como Antínoo, enquanto Samantha Morton impressiona como a feiticeira Circe, em uma das passagens mais bem construídas da narrativa, numa bela sequência que envolvem homens e animais. John Leguizamo emociona como Eumeu, o pastor de porcos cego e fiel, arquétipo da lealdade e hospitalidade grega, que permanece devoto à família real mesmo após duas décadas de ausência de Odisseu. E Himesh Patel demonstra firmeza como o oficial de confiança de Odisseu, Euríloco.
Por outro lado, Tom Holland decepciona como Telêmaco. Sua atuação é pálida, sem profundidade, incapaz de transmitir a percepção real do que o personagem vive. Seja cercado de pretendentes abusivos no palácio, em sua viagem em busca de respostas pelo pai, ou em seu retorno que se transforma em uma missão final, Telêmaco nunca ganha vida necessária para emocionar.
Charlize Theron é uma Calipso com cara de paisagem, e Zendaya uma Athena praticamente muda, que tenta se justificar em cena apenas com expressões de choro. Já Elliot Page (oficial responsável por apresentar o Cavalo de Troía), Lupita Nyong´o (Helena de Troia e sua irmã gêmea), Mia Goth (a assistente (Melántho), Travis Scott (o poeta-cantor, Fêmio), Joe Bernthal (Menelau), Benny Safdie (Agamenon) não passam de figuras decorativas, meramente figurativas, que poderiam ou até deveriam ter alguma relevância dramática. Mas não rendem quase nada.
O sentimento que fica ao fim é de um filme épico, um grande espetáculo técnico e narrativo. Nolan constrói uma obra monumental, com direção potente e um elenco de peso, mas a insistência em imprimir realismo absoluto transforma sua versão de “A Odisseia” em um épico incapaz de provocar a grande emoção que se espera. Todo filmado em IMAX, é um filme que impressiona pela forma, mas não conquista pela essência — um épico que se anuncia grandioso, mas que termina como um colosso sem alma. Um grande filme sim, mas sem deslumbre.






















