
O cinema documental carrega o poder quase místico de congelar o tempo, mas poucos conseguiram capturar a alma de uma nação de forma tão visceral quanto o trabalho em torno do fenômeno musical cubano Buena Vista Social Club. Para compreender o peso de Buena Vista Social Club: Adiós (2017), dirigido por Lucy Walker, é obrigatório fazer uma reverência ao seu antecessor espiritual. O primeiro filme, lançado em 1999 por Wim Wenders, não foi apenas um documentário; foi um terremoto cultural que resgatou do esquecimento os mestres da era de ouro de Havana, apresentando ao mundo a doçura de Ibrahim Ferrer, o piano virtuosinho de Rubén González e o carisma eterno de Compay Segundo. Wenders registrou o milagre do reencontro promovido por Juan de Marcos González e Ry Cooder, estabelecendo um marco na história da música e do cinema.
Contudo, se o primeiro longa era uma celebração da ressurreição e do ápice internacional, Adiós surge com uma proposta dramaticamente mais íntima, melancólica e documentalmente rica sobre os bastidores e o crepúsculo desse grupo lendário. Lançado diretamente em home vídeo no Brasil pela Universal Pictures Home Entertainment, o filme de Lucy Walker se debruça sobre a produção e a contextualização histórica de uma forma que o primeiro filme não pôde fazer.
A produção de Adiós assume uma responsabilidade complexa: olhar para trás sabendo que a ampulheta do tempo já correu. Walker utiliza um vasto material de arquivo inédito, estruturando a narrativa de modo a preencher as lacunas históricas sobre o clube original da década de 1940, que foi fechado após a Revolução Cubana na década de 1950. A grande força desta produção está em seu acesso aos bastidores da turnê de despedida e, infelizmente, nos registros dos funerais e das ausências de figuras centrais como Ferrer, Compay e Rubén González. A câmera aqui não busca apenas o brilho do palco, mas as rugas do tempo, o cansaço físico e a imensa dignidade dos membros sobreviventes, como Omara Portuondo e Manuel ‘Guajiro’ Mirabal.
A montagem de Adiós é um trabalho de ourivesaria. Ao contrapor o sucesso estrondoso do álbum de 1997 com a inevitabilidade da morte, a produção consegue evitar o sentimentalismo barato, transformando a melancolia em pura celebração de legado. Ouvir os depoimentos e ver as reflexões desses artistas sobre suas trajetórias extraordinárias confere ao longa uma camada de profundidade que complementa perfeitamente a obra de Wenders. O primeiro filme nos fez apaixonar pelo Buena Vista; o segundo nos ensina a nos despedirmos deles, consolidando a imortalidade de uma cultura que se recusa a silenciar.
DVD Colorido | Gênero: Documentário (+ Musical) | Duração: 110 minutos | Formato de Tela: Widescreen 1.78:1 Anamórfico | Áudio: INGLÊS (DD 5.1) – Obs.: Com trechos em espanhol | Legenda: INGLÊS (SDH), ESPANHOL, PORTUGUÊS | Classificação Indicativa: 10 anos | Extras: ON THE RECORD WITH THE BAND

























