Até a Eternidade (Les petits mouchoirs, 2010) de Guillaume Canet
O cinema francês contemporâneo possui uma habilidade única para dissecar as dinâmicas sociais burguesas, transformando reuniões festivas em verdadeiros campos de batalha emocionais.
É exatamente dentro dessa tradição que se ergue Até a Eternidade (Les petits mouchoirs, 2010), dirigido com sensibilidade por Guillaume Canet. Esta envolvente dramédia francesa acompanha a trajetória de um grupo de amigos de longa data que, mesmo após um evento profundamente traumático que abala a estrutura de todos, toma a decisão consciente de manter a tradicional viagem de férias anuais rumo a uma bela casa de praia na região de Bordeaux.
Trata-se de um bom filme, embora em determinados momentos flerte perigosamente com uma estrutura que remete à narrativa de novela. O roteiro patina em uma leve indecisão tonal, fazendo o espectador hesitar entre citar as crônicas cotidianas de Manoel Carlos ou os nós dramáticos de Glória Perez. Canet faz um uso recorrente do conhecido efeito que combina edição ágil, música pop nostálgica e momentos de profunda reflexão silenciosa para ditar o ritmo da narrativa.
Embora vários personagens sejam delineados a partir de contornos que flertam com o clichê do cinema americano, eles ganham uma tridimensionalidade impressionante por serem interpretados de maneira brilhante. Toda a carga dramática da obra é fruto direto da competência inquestionável de seu elenco francês estelar.

O desenho desse grupo de amigos funciona como um espelho de tipos humanos facilmente reconhecíveis, veja bem.
O núcleo familiar: Temos o empresário rico e constantemente estressado (François Cluzet) em perfeito contraste com sua esposa linha-dura e pragmática (Valérie Bonneton).
Os solitários: Destaca-se a mulher descolada e solteira com dificuldades de apego (Marion Cotillard) e o eterno apaixonado rejeitado pela ex-namorada (Laurent Lafitte).
As crises afetivas: O cafajeste de bom coração (Gilles Lellouche) divide espaço com a esposa infeliz no casamento (Pascale Arbillot) e seu esposo (Benoît Magimel), que descobre estar secretamente apaixonado pelo melhor amigo.
O estopim dramático: O porra-louca gente boa (Jean Dujardin), cujo terrível acidente de moto logo no início serve como a sombra invisível que paira sobre as férias do grupo.
Para completar o mosaico social, a trama insere um guru new age caricato (Hocine Mérabet) e a figura que funciona como a verdadeira voz da razão na história: Jean-Louis (Joël Dupuch), um morador local e pescador da praia que enxerga através das máscaras dos visitantes.
Devido ao seu ritmo dinâmico e apelo universal, a fita poderia até se passar facilmente por uma produção de um grande estúdio americano. Contudo, a obra se distancia de Hollywood ao trazer em seu ato final uma atitude de simbolismo sentimental muito mais forte, crua e dolorosa que qualquer clichê industrial.
Mesmo lidando com uma situação constante de muitos personagens dividindo a mesma cena — o que gera o desenvolvimento de múltiplas subtramas e conflitos ao mesmo tempo —, o diretor Guillaume Canet demonstra controle absoluto do tabuleiro cênico, sempre procurando extrair a verdade do sentimento em suas tomadas. O cerne sentimental da história investiga a força da amizade ou a ausência dela, confrontando o público quando pensamos que as relações já estão consolidadas. É nesse cenário idílico de férias que a câmera desencava pequenas mentiras cotidianas, as quais, sob a força da convivência forçada, transformam-se em grandes verdades e potentes resoluções finais.
O DVD disponibilizado não possui extras.

























