
Cabo do Medo (Cape Fear, 2026) de Nick Antosca, com produção executiva de Martin Scorsese e Steven Spielberg (diretores dos episódios: Morten Tyldum, Amanda Marsalis, Jon S. Baird, S.J. Clark, Reed Morano, Steven Piet, Trev Edward Shults, Jonathan van Tulleken e Stephen Williams).
Quem consome muito audiovisual sabe como é difícil ser pego de surpresa hoje em dia, mas essa nova versão de Cabo do Medo na Apple TV conseguiu o que parecia quase impossível para mim: me fez abrir a boca e tapar com a mão, de puro choque, logo nesses dois primeiros episódios.
Esse impacto imediato é o reflexo do impressionante selo de qualidade que a plataforma vem consolidando, entregando uma produção rica em fotografia, edição e direção que não deve absolutamente nada ao cinema, o que faz todo sentido quando percebemos nos bastidores o aval e a produção executiva de dois grandes mestres como Steven Spielberg e Martin Scorsese.

A atmosfera de opressão é amplificada por uma trilha sonora que remete diretamente ao peso e à melodia da versão de 1991, funcionando como um aviso constante de que algo terrível está prestes a acontecer, enquanto o elenco de primeira linha sustenta a tensão com maestria, trazendo um Patrick Wilson contido e uma Amy Adams sempre fenomenal, que carrega a dubiedade de estar no centro do alvo após uma mudança muito inteligente na trama, onde a figura do advogado ameaçado agora passou a ser ela.
Substituir o peso histórico de Robert De Niro no papel do psicopata Max Cady parecia uma missão ingrata, já que a atuação de 1991 é muito celebrada (inclusive com uma indicação ao Oscar por sua atuação na época), embora banhada em uma vilania muito descarada e imponente. O que
Javier Bardem faz aqui é de um refinamento. Ele consegue herdar toda aquela energia ameaçadora e a imponência física do personagem, mas constrói o seu monstro através de um realismo cheio de nuances sutis, o que só prova que não escolheram ele por acaso, afinal, Bardem traz na bagagem a chancela de ter vivido o Anton Chigurh em
Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), papel que lhe rendeu o Oscar de coadjuvante, e o eternizou na galeria dos grandes psicopatas do cinema.
Fazer o espectador grudar na cadeira sabendo que essa história já foi contada antes, tanto no livro original de John D. MacDonald quanto nas telas com Gregory Peck em 1962 e De Niro nos anos 90, é o maior mérito dessa nova roupagem, que assume nos créditos ser um recorte de tudo o que veio antes para criar ganchos poderosos, gotejar uma violência bem mais amplificada e construir um suspense que prende tanto a nossa atenção que se torna um verdadeiro sofrimento ter que esperar pelos próximos capítulos.
Para os fãs de suspense isso é um banquete.
Versões Anteriores e Diretores
Baseado no livro “The Executioners” de John D. MacDonald, a primeira adaptação foi com o filme Círculo do Medo (1962) de J. Lee Thompson, estrelando Robert Mitchum (Max Cady), Gregory Peck (Sam Bowden) e Polly Bergen (Sra. Bowden).
Contudo a versão mais aclamada e famosa junto ao público é assinada pelo diretor Martin Scorsese, Cabo do Medo (1991), com Robert De Niro (Max Cady), Nick Nolte (Sam Bowden) e Jessica Lange (Sra. Bowden), ganhando indicações ao Globo de Ouro e Oscar, atriz coadjuvante (Juliette Lewis) e melhor ator (De NIro).
A minissérie da Apple TV é a terceira adaptação do mesmo livro.
Entre os diretores dos 10 episódios, há cineastas com experiência no cinema.
Morten Tyldum (Jogo da Imitação, 2014; Passageiros, 2016); Jon S. Baird (Tetris, 2023; Stan & Ollie, 2018); S.J. Clark (Madame Teia, 2024), Reed Morano (Agora Estamos Sozinhos, 2018; O Ritmo da Vingança, 2020) e Trev Edward Shults (Ao Cair da Noite, 2017; As Ondas, 2019).