A Música Segundo Tom Jobim (Idem, 2011) de Nelson Pereira dos Santos (co-dirigido por Dora Jobim)
O cinema documental frequentemente se ancora na palavra falada para reconstruir a história, empilhando depoimentos e análises que tentam decifrar a genialidade de seus biografados. No entanto, quando um mestre da imagem decide debruçar-se sobre a trajetória do maior arquiteto da bossa nova, as regras tradicionais do gênero são silenciosamente revogadas. É sob essa premissa envolvente e ritmaada que se ergue A Música Segundo Tom Jobim (2011), uma obra de arte que se apoia em uma escolha narrativa incomum e profundamente radical: as composições do maestro falam por si mesmas. Sem intermediários, sem ruídos e com uma simplicidade que beira o sagrado.
O projeto é comandado pelo experiente cineasta Nelson Pereira dos Santos, uma das figuras mais viscerais e fundamentais da história do cinema brasileiro. Dono de uma filmografia impecável que ajudou a fundar as bases do Cinema Novo com clássicos do cinema brasileiro, como Vidas Secas (1963), Nelson demonstra aqui a maturidade de um realizador que sabe exatamente quando recuar a própria câmera para dar protagonismo absoluto à arte. Co-dirigido com sensibilidade por Dora Jobim, neta do maestro, o longa-metragem já abre as cortinas informando à audiência que as palavras humanas jamais fariam justiça àquela obra eterna. Essa constatação honesta serve como a justificativa perfeita para um artifício estético primoroso: no filme inteiro, não há um único diálogo, narração em off, entrevista nostálgica ou sequer uma legenda explicativa que identifique quem está interpretando as canções na tela.

Para os espectadores habituados ao fluxo didático da televisão, essa ausência de informações textuais pode sugerir um certo vazio inicial. Contudo, o que ocorre na sala de projeção é o oposto: a emoção pura da música transborda de forma avassaladora, preenchendo cada centímetro da película. O espectador é convidado a uma viagem sensorial e arqueológica, descobrindo momentos curiosos e encontros transatlânticos preciosos em que o próprio Antônio Carlos Jobim aparece sozinho ao piano ou muito bem acompanhado por gigantes da música mundial, como Judy Garland, Ella Fitzgerald, Henri Salvador, Diana Krall e Sarah Vaughan.
O documentário costura com extrema elegância esses registros históricos, alternando-os com clássicos imortais ao lado de Vinícius de Moraes, Elis Regina e Frank Sinatra. Há também espaço para belíssimas homenagens prestadas por contemporâneos como Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, além de releituras mais recentes conduzidas por vozes como Fernanda Takai, Adriana Calcanhotto, Carlinhos Brown e suntuosas execuções por orquestras sinfônicas internacionais. Nelson Pereira dos Santos não faz apenas um filme; ele constrói um monumento visual à altura de Tom Jobim. O resultado final é um exercício cinematográfico de respeito e contemplação. Lindo, lindo, lindo.
Extras do DVD com entrevistas; especial com a estreia em Nova York; cenas do filme; making of e trailer.


























