Bob Marley: One Love (2024) de Reinaldo Marcus Green
O panorama do cinema contemporâneo consolidou uma tendência mercadológica clara: a proliferação em massa de cinebiografias musicais. De tempos em tempos, os estúdios recorrem ao catálogo de lendas da música para faturar alto na bilheteria e nas temporadas de premiações.
O grande problema dessa engrenagem industrial é a ausência crônica de novidades estéticas. Na maior parte dos casos, o que se entrega ao público é um emaranhado previsível de clichês de gênero, amarrados por um roteiro enciclopédico que se limita a preencher uma lista de tópicos biográficos, oferecendo pouquíssimos temas novos a serem de fato descobertos.
Diante desse cenário saturado, a chegada de Bob Marley: One Love (2024) desperta um misto de curiosidade e inevitável ceticismo, e a escolha do diretor Reinaldo Marcus Green, conhecido por seu trabalho na cinebiografia King Richard: Criando Campeãs (2021), parecia ser uma jogada segura. E foi até demais.
Para a surpresa do espectador, a produção carrega uma pequena e bem-vinda vantagem sobre a grande maioria de suas concorrentes de nicho. Em vez de tentar abraçar a vida inteira do ícone do reggae desde o berço até o túmulo de forma apressada, o roteiro toma a decisão inteligente de focar em um recorte temporal muito específico: o período entre o final dos anos setenta, marcado pela tentativa de assassinato sofrida pelo músico, e o seu exílio subsequente em Londres.
Essa escolha confere ao longa um verniz e um olhar político cruciais. Embora o debate ideológico não chegue a ser profundamente apurado ou complexo, a geopolítica da Jamaica e a busca de Marley pela paz em meio a uma guerra civil iminente são devidamente citadas, contextualizadas e comentadas no roteiro, impedindo que o filme se transforme em um mero comercial de televisão.
Contudo, onde o longa-metragem ostentava a chance de ouro de se destacar e alcançar o status de obra memorável, ele opta pela segurança do lugar-comum. Em se tratando de vivenciar a criação do álbum Exodus — o disco divisor de águas que mudou para sempre a história do reggae e consagrou o artista mundialmente —, o que vemos projetado na tela é ínfimo, protocolar e totalmente desprovido de surpresas. O processo criativo, as experimentações em estúdio e a mágica das composições são reduzidos a montagens rápidas e superficiais. O espectador não testemunha o suor ou a genialidade da construção musical; tudo parece acontecer de forma mágica e sem o peso do esforço real, esvaziando a catarse artística.

No que tange aos aspectos interpretativos, o cenário repete a tônica da moderação, sem brilhar os olhos. Kingsley Ben-Adir defende o papel do cantor com uma dignidade evidente. Ele replica os trejeitos, o sotaque e a presença de palco do astro de maneira respeitosa, mas sem nunca atingir o magnetismo ou a energia mística natural do Bob Marley real.
E Lashana Lynch (Rita Marley), entrega o contraponto dramático necessário à jornada do protagonista, mas o texto não lhe concede espaço suficiente para expandir as dores daquela dinâmica familiar.
O saldo final é apenas correto. Trata-se de uma obra que não desafina, não comete erros grotescos e mantém um padrão técnico aceitável. Mas também não empolga, justamente por se recusar a arriscar, fica cravada exatamente no meio do caminho entre o tributo respeitoso e a mediocridade industrial.

























