Dia #5 – Semana Internacional da Crítica – Festival de Veneza 2026
Prima Della Guerra (Itália/França, 2026), de Tomasso Usberti
Estreia em longa-metragem do diretor Tommaso Usberti, Prima Della Guerra (título interncional Before the War, Itália/França, 2026) chega à Semana Internacional da Crítica no Festival de Veneza 2026 recusando qualquer concessão ao espectador. O filme transforma a paisagem ensolarada da Lombardia rural em um campo de contaminação social, onde a brutalidade não é um evento isolado, mas o próprio ar que os personagens respiram. Usberti constrói um espiral de violência sobre a herança da crueldade.
No centro dessa engrenagem está Guido (Piero Usberti), todo trabalhado numa intensidade física constante, quase animal. O personagem é o sintoma vivo de sua região: um jovem mecânico impregnado pela intolerância, pelo desprezo à mulher e pelo racismo sistêmico que moldam o interior italiano. A violência aqui se manifesta em múltiplas camadas — desde a agressividade física explícita até a opressão velada do cotidiano laboral. Ele transita por esse ambiente como um cúmplice natural, até que um encontro que parecia ser fugaz com uma jovem de origem albanesa, Sonia (Luàna Bajrami), se torna uma ruptura de si mesmo, desencadeando sentimentos até então inexistentes.

É no encontro com Sonia, uma imigrante kosovar, que o filme encontra seu eixo de tensão moral. O diretor evita o clichê do afeto salvador; a aproximação entre os dois é espinhosa, tensa e marcada pelo medo. A presença de Sonia expõe a podridão daquele microcosmo e força Guido a enxergar as marcas da própria barbárie. O ponto de virada da narrativa não busca saídas confortáveis, mas coloca o protagonista diante de um divisor de águas incontornável: perpetuar o ciclo ao se mudar para Milão e assumir um ganha-pão manchado de sangue e exploração, ou arriscar a própria pele ao escolher a responsabilidade do afeto com alguém que ele julgava ser apenas um caso banal.
A câmera de Tommaso Usberti segue de perto a narrativa, transmitindo uma sensação incômoda de iminente explosão dramática tingida de violência. Além disso, a fotografia utiliza a luz amarelada do calor sufocante não para embelezar a zona rural, mas para evidenciar a sujeira, o suor e a estagnação daquela comunidade. “Prima Della Guerra” se afirma como um ensaio devastador sobre o embrutecimento da juventude e a dificuldade quase insuperável de escolher a humanidade em um mundo fundado na violência.























