Um Conto Chinês (Un Cuento Chino, 2011) de Sebastián Borensztein
Hoje a dica é uma boa dramédia argentina, aquela mistura de drama com comédia em proporções certas. Um Conto Chinês (Un cuento chino, 2011), escrito e dirigido por Sebastián Borensztein, equilibra com precisão drama, comédia e sutis pinceladas de romance. O filme entrega uma narrativa cativante sobre choque cultural, a resistência em abandonar velhos hábitos e o fascinante poder das coincidências — ou seria do próprio destino operando nos bastidores da vida?
A trama nos apresenta a Roberto, um veterano da Guerra das Malvinas, interpretado pelo soberbo Ricardo Darín. Dono de uma modesta loja de ferragens em Buenos Aires, ele vive há mais de duas décadas recluso em uma rotina quase neuroticamente calculada, colecionando notícias bizarras de jornais e mantendo o mundo à distância. Contudo, essa existência meticulosamente controlada sofre um abalo sísmico quando, literalmente, um jovem chinês chamado Jun despenca em sua vida após ser assaltado e expulso de um táxi.
O cinema argentino tem se provado uma força vital no cenário internacional, entregando obras estupendas ao longo dos anos — com destaque incontestável para o vencedor do Oscar O Segredo dos Seus Olhos (2009). Embora Um Conto Chinês adote uma escala visivelmente mais modesta e intimista, o longa não deixa de figurar como uma joia preciosa dessa cinematografia. Trata-se de um conto primoroso, sustentado por uma direção ágil, uma produção cuidadosa e um roteiro repleto de ironia e sensibilidade.

Grande parte do encanto da fita repousa na eletrizante química do seu par de protagonistas. Ricardo Darín, indiscutivelmente um dos maiores nomes do cinema sul-americano, entrega uma atuação magistral ao transformar um sujeito aparentemente ranzinza e intransigente em uma figura profundamente humana e empática. O carisma magnético de Darín torna irresistível acompanhar o processo de desarmamento do seu personagem frente ao absurdo cotidiano.
Por outro lado, o filme não atingiria tamanha graça sem o trabalho memorável de Ignácio Huang. Comunicando-se quase inteiramente sem dizer uma única palavra em espanhol, Huang constrói seu personagem com uma expressividade física encantadora. Seu tom de vulnerabilidade e doçura genuína contrapõe perfeitamente o rigor de Roberto, criando um jogo cênico onde a barreira do idioma desmorona diante da solidariedade compartilhada.
Sem recorrer a sentimentalismos baratos, Borensztein constrói uma fábula urbana universal sobre dor, pertencimento e conexões improváveis. Um Conto Chinês pode até não pretender a imponência dos grandes dramas operísticos de seu país, mas triunfa justamente na simplicidade. É uma obra incrivelmente acolhedora, divertida e com atuações brilhantes que reafirmam o talento argentino para transformar pequenos acasos cotidianos em puro encanto cinematográfico.
– O DVD avaliado não possui extras.
INFORMAÇÕES ESPECIAIS:
Ricardo Dárin estrelou os melhores filmes do cinema argentino dos últimos anos, incluindo,
Nove Rainhas (2000);
O Filho da Noiva (2001);
Clube da Lua (2004);
XXY (2007);
O Segredo dos Seus Olhos (2009);
Abutres (2010);
Tese Sobre um Homicídio (2013);
Relatos Selvagens (2014);
























