Soldado Universal 4 – Juízo Final (Universal Soldier: Day of Reckoning, 2012) de John Hyams
Analisar a trajetória de certas propriedades intelectuais em Hollywood é testemunhar um processo de decadência industrial. O caso da marca inaugurada na década de 1990 é emblemático. Aquele produto de 92 (Soldado Universal), que lançou Van Damme nos EUA e abriu as portas ao diretor Rolland Emmerich (que depois faria Independence Day, 1996), com resquício dos filmes de ação farofa dos anos 80, ficou para trás.
O que outrora representava o ápice do entretenimento escapista do inpicio dos anos 90, com um orçamento interessante e uma história que tinha uma boa dinâmica na tela grande, calcado no carisma de brucutus e em explosões pirotécnicas para as massas, acabou diluído por uma máquina caótica de sequências desprovidas de alma ou propósito artístico.
A derrocada comercial e criativa não demorou a se manifestar. A primeira continuação (Soldado Universal – O Retorno, 1999) foi uma tentativa desesperada de Van Damme ter uma sobrevida no cinema, mas o caça-níquel não tinha fundamento. Experiente como diretor de segunda unidade e de dublês em filmes como Maverick (1994), Coração Valente (1995), Máquina Mortífera 4 (1998) e O Troco (1999), Mic Rodgers estreou na direção numa grande roubada. Sem um roteiro interessante ou vilão que funcionasse, o filme é um desastre e foi um grande fracasso de bilheteria.

Sem o apelo do conceito original e desprovido do frescor da época, esse segundo capítulo tentou requentar uma fórmula desgastada na tela grande, falhando miseravelmente em justificar sua própria existência além do puro oportunismo financeiro. Diante do fracasso nos cinemas, o destino inevitável da marca foi o rebaixamento de categoria. O retorno trash da franquia aconteceu em 2009, á época com uma produção de baixo orçamento, direto nas locadoras, apostando sempre em muita pancadaria, assumidamente Z.
Soldado Universal 3 foi assinado pelo diretor John Ryams, filho do diretor especializado em ficção científica, Peter Hyams (Outland – Comando Titânico, 1981; 2010 – O Ano em que Faremos Contato, 1984; e que trabalhou com Van Damme em seu maior sucesso comercial nos EUA, Timecop – O Guardião do Tempo, 1994). Ele tentou seguir os passos do pai na indústria como roteirista, diretor e diretor de fotografia, sendo reconhecido por trabalhos em séries como Chicago P.D. e Chicago Fire, até chegar à essa parceria com Van Damme.
Longe dos holofotes do circuito comercial e abraçando as limitações do baixo orçamento, a franquia encontrou abrigo no submundo do mercado de vídeo, focando-se no nicho da violência crua e periférica.
Chegamos, então, ao quarto capítulo dessa espiral, Soldado Universal 4: Juízo Final (2012). E agora Van Damme e Dolph Lundgreen reprisam seus papéis em mais um filme que poderia até ser mais do mesmo (dirigido pelo mesmo John Hyams da Parte 3, que não quer dizer muita coisa em termos de qualidade), porém é completamente diferente dos outros. E ainda assim, não empolga em nenhum momento.

Há um esforço visível do diretor em quebrar as expectativas e afastar a fita do tom meramente genérico de seus predecessores diretos. Acredite os cinco minutos iniciais, de onde parte a motivação da história, são tensos e bem preparados, mas fica por aí. Essa introdução consegue estabelecer uma atmosfera genuína de suspense e choque, sugerindo um filme que finalmente se preocupa com a construção de narrativa e impacto psicológico.
Infelizmente, a promessa se desfaz com velocidade impressionante. O resto é uma mistura de memórias apagadas e efeitos de som ensurdecedores e imagens tremidas que chegam até dar dor de cabeça. A direção confunde experimentação estética com agressão sensorial, soterrando o espectador sob uma montagem confusa e uma sonoplastia irritante. Em termos substanciais, o roteiro esvazia-se por completo. O resto é uma seita que prega o dia do juízo final e muita-ação-pouca-história de sempre.
E os veteranos astros funcionam mais como fetiches visuais do que como personagens reais dentro de uma trama que recicla clichês apocalípticos banais e de pancadaria ininterrupta. Fim (melancólico).
- O DVD de “Soldado Universal 4” disponibilizado não possui extras.
A Evolução da Franquia (ou seria Involução?): do cinema ao mercado de vídeo (mídia física – DVD/Bluray + Streaming)
Soldado Universal
1992 – Orçamento de US$ 23 milhões para $95.2 milhões de bilheteria mundial
Produto de Cinema: O filme original funciona como plataforma de lançamento para Van Damme no mercado norte-americano e serve como vitrine para o diretor Roland Emmerich. O auge do estilo de ação herdado dos anos 1980, mas praticado com os efeitos e investimentos dos anos 90.
Soldado Universal – O Retorno (Universal Soldier: The Return)
1999 – Orçamento de US$ 45 milhões para US$13.36 milhões de bilheteria mundial
Tentativa no Cinema: A primeira sequência oficial tenta manter a franquia nas telas dos cinemas, acabou se tornando um retumbante fracasso de crítica e bilheteria. Lançado no momento em que a carreira de Van Damme entrava em declínio após uma série de produções que não performaram bem nas bilheterias. Na esperança de repetir o sucesso estrondoso do filme original, ele não apenas retornou como o protagonista Luc Deveraux, mas também assumiu a função de produtor do filme.
Soldado Universal 3 (Universal Soldier III: Regeneration/Unfinished Business) de John Hyams
2009 – Orçamento de US$ 8 milhões
Migração para Locadoras: A franquia abandona de vez as salas de cinema. O retorno acontece diretamente no mercado de home video, assumindo uma estética trash de nível Z e focando na pancadaria para o público de locadora.
Soldado Universal 4 – Juízo Final (Universal Soldier: Day of Reckoning, 2012) de John Hyams
2012 – Orçamento de US$ 9 milhões
Consolidação no Mercado de Vídeo: Sob o comando do mesmo diretor do terceiro longa, o filme tenta se reinventar, sacramentando a permanência da grife no formato de consumo na TV.
























