A Outra Terra (Another Earth, 2011) de Mike Cahill
No vasto território do cinema contemporâneo, a ficção científica frequentemente se alia ao espetáculo visual de grandes orçamentos e efeitos digitais pirotécnicos para fabular sobre o desconhecido. No entanto, as obras mais duradouras e perturbadoras do gênero costumam ser aquelas que utilizam o cosmos apenas como uma moldura poética para investigar as fraturas mais íntimas da alma humana.
É precisamente nessa categoria intimista que chegamos em A Outra Terra (Another Earth, 2011), estreia do diretor Mike Cahill em longas. Trata-se de um drama de ficção científica bem esquisito, que recusa as convenções tradicionais de Hollywood, mas que possui uma atmosfera hipnótica capaz de deixar o espectador completamente conectado e intrigado da primeira à última tomada.
A narrativa abre com um contraste violento e doloroso. De um lado, conhecemos Rhoda Williams (Brit Marling), uma jovem brilhante de apenas 17 anos que acaba de realizar o sonho de ser aceita no prestigiado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). O clima é de celebração e farra inconsequente. Do outro lado da cidade, uma família comum — composta por pai, mãe grávida e um filho pequeno — aguarda pacificamente dentro de um carro parado em um sinal de trânsito no meio da noite. E então, o desastre acontece: uma colisão mortal destrói aquela calmaria. Quem bebeu e saiu dirigindo de forma irresponsável? A promissora estudante. O resultado trágico culmina em um julgamento rápido e anos de reclusão na cadeia. Quando Rhoda finalmente ganha a liberdade, o cenário é desolador: daquela família literalmente destruída, restou apenas o pai, John Burroughs (William Mapother), soterrado pelo vazio da perda e pelo luto.

À primeira vista, o espectador pode pensar que está diante de um drama convencional e puramente triste sobre culpa e punição. Contudo, é a partir desse ponto de fratura que começa a verdadeira elucubração filosófica e o sentimento mais profundo pela vida que tornam a obra única. O recomeço para ambos os personagens ganha contornos metafísicos quando a humanidade descobre a existência de uma “Outra Terra” (denominada Terra 2), um planeta idêntico ao nosso que surge de forma inexplicável logo ali no espaço, visível a olho nu na atmosfera.
A presença desse novo astro no céu provoca questionamentos existenciais profundos: será que há vida inteligente idêntica à nossa por lá? Será que aquele planeta espelho abriga versões alternativas de nós mesmos, que tomaram decisões diferentes no passado? Aquele poderia ser, afinal, o lugar que muitos necessitam para uma segunda chance ou um recomeço absoluto?
O longa-metragem não se preocupa em entregar respostas fáceis, oferecendo ao público muito mais perguntas do que certezas. É justamente no olho desse furacão de dúvidas cósmicas que a direção estabelece o verdadeiro coração dramático da fita: o encontro fortuito, silencioso e carregado de dor entre a jovem — profundamente penalizada com seu ato passado, carregando o peso esmagador do mundo nas costas — e o pai sobrevivente, um homem completamente largado da vida e entregue à depressão. E agora? Como essas duas almas mutiladas se relacionarão diante da possibilidade de um mundo paralelo?

Inédito nos cinemas do Brasil, onde infelizmente não recebeu o circuito de exibição comercial tradicional nas telas grandes que merecia, A Outra Terra é uma recomendação preciosa e obrigatória para os cinéfilos que apreciam histórias originais que desafiam o intelecto e tocam o coração. Trata-se de uma obra cirúrgica que pode — e deve — ser plenamente apreciada e saboreada no conforto da sua casa, seja descobrindo o longa em coleções físicas de DVD ou explorando os catálogos digitais das plataformas de streaming disponíveis.
Mike Cahill (que depois faria o bem regular Bliss – Em Busca da Felicidade, 2021) usa uma fotografia fria e intimista para nos aproximar da melancolia dos protagonistas, transformando o mistério de ficção científica em um espelho psicológico para quem está assistindo. Descubra este achado do cinema independente, contemple as suas belíssimas metáforas existenciais sobre a duplicidade e dedique um tempo após os créditos finais para pensar em si mesmo, nas suas próprias escolhas e nos caminhos que deixaram de ser trilhados. Um belíssimo filme.

























