A Primeira Profecia (The First Omen, 2024) de Arkasha Stevenson
No cenário contemporâneo do cinema de entretenimento, ressuscitar franquias clássicas do terror transformou-se em uma tarefa de extrema vulnerabilidade crítica. Na maioria das vezes, os estúdios optam por continuações tardias que apenas reciclam os sustos do passado.
Justamente nesse horizonte de desconfiança que A Primeira Profecia (The First Omen, 2024), dirigido por Arkasha Stevenson, estabelece-se como um triunfo cinematográfico de engenharia narrativa. A obra representa uma ótima saída encontrada pelos produtores para continuar contando a macabra história de Damien — a icônica criança demônio que aterrorizou o mundo no clássico original “A Profecia” (1976) —, mas com um diferencial inteligente: o roteiro recusa terminantemente apelar para sequências posteriores, preferindo investigar o passado para construir os alicerces do mito.

Como se trata de um prelúdio autônomo, o filme atinge uma versatilidade comercial e artística louvável. Ao mesmo tempo em que oferece respostas densas para os fãs de longa data, a produção serve perfeitamente ao público jovem que nunca ouviu falar da obra-prima de Richard Donner, lá dos anos 70. A narrativa acompanha Margaret (Nell Tiger Free), uma jovem noviça americana enviada a Roma para trabalhar em um orfanato antes de professar seus votos definitivos. Na capital italiana, ela se depara com uma escuridão institucionalizada dentro da própria Igreja e uma conspiração aterrorizante que visa provocar o nascimento do próprio Anticristo.
Do ponto de vista estritamente técnico, a diretora Arkasha Stevenson (com assinatura em algumas séries para TV, como Channel Zero – 2016/2018) afasta-se dos clichês do horror digital moderno. O clima do longa varia constantemente entre o desespero psicológico e o medo primitivo. A fotografia adota tons quentes e granulados que emulam perfeitamente a estética do cinema dos anos setenta, enquanto o design de som hiperbólico e a trilha sonora — que evoca os coros satânicos originais de Jerry Goldsmith — criam uma atmosfera de opressão constante. O roteiro encontra excelentes soluções visuais e conceituais para manter viva a franquia, entregando sequências de horror corporal que testam os limites da censura com elegância e crueza.
O desempenho do elenco eleva o filme acima da média do gênero. A atuação da protagonista Nell Tiger Free é de uma entrega física e psicológica que impressiona e nos faz acreditar em seu próprio desespero. No entanto, para o público brasileiro, o grande destaque de bastidores reside na presença magnética da lendária atriz Sônia Braga (indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie, Antologia ou Filme para TV por sua atuação no filme “Amazônia em Chamas” – The Burning Season, 1994). Encarnando a enigmática e austera Irmã Silva, uma das figuras de autoridade do convento romano, a atriz brasileira entrega uma performance assustadora. Braga utiliza sua imponência cênica e olhares cortantes para injetar uma dose massiva de ambiguidade e ameaça na trama, ilustrando com perfeição como o fanatismo religioso pode se converter em monstruosidade.
A Primeira Profecia mostra que o terror de estúdio ainda pode ser simples e visceral, inteligente e esteticamente instigante, enfim, uma ótima pedida para quem ama o verdadeiro horror.


























