Os Fantasmas Ainda se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice (Beetlejuice Beetlejuice, 2024) de Tim Burton
Demorou quase 40 anos, mas o clássico que redefiniu o cinema de comédia de horror, o bio-exorcista mais infame da cultura pop está de volta. Em Os Fantasmas Ainda se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice (2024), testemunhamos não apenas uma sequência tardia, mas o renascimento de uma das parcerias criativas mais bem-sucedidas e singulares de Hollywood: o diretor Tim Burton e o camaleônico Michael Keaton. O resultado é uma obra que vai muito além da nostalgia vazia, consolidando-se como um acerto genuíno que honra o passado enquanto abre as portas para o futuro.
Desde os primeiros minutos, fica claro que a tônica que consagrou o filme de 1988 permanece intacta. Burton consegue equilibrar perfeitamente o sombrio e o divertido, o macabro e o pastelão. Esse equilíbrio é impulsionado pelo retorno magnético de Michael Keaton. Debaixo da maquiagem embolorada e do icônico terno listrado, Keaton parece não ter envelhecido um único dia no quesito energia; sua performance como Beetlejuice continua caótica, politicamente incorreta e deliciosamente imprevisível. A continuação não é apenas uma viagem à memória, é uma prova de que o expressionismo bizarro de Tim Burton ainda tem pulso, vigor e muita piada de humor negro para contar.
Ao lado de Keaton, o retorno de Winona Ryder (como a agora madura Lydia Deetz) e Catherine O’Hara (a sempre excêntrica Delia) traz a ancoragem emocional necessária para a trama. No entanto, o grande trunfo do roteiro é não se escorar apenas no elenco original. A adição de Jenna Ortega, interpretando Astrid, a filha cética de Lydia, funciona como a ponte perfeita para uma nova geração. Ortega, que já havia trabalhado com Burton na série Wandinha (2022~), entrega o cinismo exato para contrastar com as loucuras do Mundo dos Mortos, servindo de porta de entrada para o público jovem que está conhecendo esse universo agora.

Visualmente, o longa é um deleite nostálgico que rejeita a artificialidade digital que satura o cinema contemporâneo. Burton insistiu no uso de efeitos práticos, maquiagem pesada, stop-motion e truques de câmera clássicos. Os cenários coloridos e expressionistas do pós-vida ressurgem com texturas reais, quase palpáveis. Para amarrar toda essa atmosfera única, a trilha sonora do lendário Danny Elfman retorna com suas composições operísticas e lúdicas, evocando instantaneamente o DNA sombrio do diretor.
Identidade gótica de Tim Burton
Este filme representa um retorno crucial para a própria carreira de Tim Burton. Nos últimos anos, o diretor parecia um pouco pasteurizado por grandes produções de estúdio. Sim, eu sei, mesmo se tratando de uma continuação para um grande estúdio (Warner), em Beetlejuice Beetlejuice (2024), ele reencontra a sua essência, direto do filme original de 1988, na época uma pequena aposta que deu muito certo.

Sim, estou falando daquela mesma assinatura estética que marcou suas obras-primas góticas mais viscerais… Edward Mãos de Tesoura (1990) e a solidão poética em meio ao expressionismo suburbano; A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999), onde o terror de época com névoa densa e paleta de cores frias; A Noiva-Cadáver (2005) e a celebração da morte como algo mais vibrante e colorido do que a própria vida; Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007) e até os dois Batman (1989; O Retorno – 1992), os quais as sombras e a arquitetura opressiva são personagens por si só.
E ainda após 36 anos, Os Fantasmas Ainda se Divertem (2024) entrega diversão e uma maravilhosa volta ao universo do filme original, mas com o frescor de suas novidades. É um filme que respeita o fã antigo e captura o espectador novo, provando que, quando Burton e Keaton se reúnem para brincar com o macabro, o cinema ganha uma vida fantástica — mesmo que ela venha diretamente do mundo dos mortos.


























