Amanhã Nunca Mais (2011) de Tadeu Jungle
O cinema brasileiro frequentemente encontra na comédia o seu porto seguro comercial, mas são raras as ocasiões em que o gênero se atreve a flertar com o cinema de fluxo e a neurose tipicamente metropolitana. Diante disso, uma pergunta intrigante serve de fundação para um projeto singular: o que aconteceria com um possível cruzamento das histórias clássicas e estéticas de Alice no País das Maravilhas, do febril Depois de Horas (de Martin Scorsese) e do cinético alemão Corra Lola, Corra (1998), tendo como cenário de fundo a louca e caótica noite da cidade de São Paulo?
A resposta visual a essa indagação ousada vem em forma de película e atende pelo nome de Amanhã Nunca Mais (2011), projeto que marcou a estreia oficial na direção de longa-metragens do experiente Tadeu Jungle.
A produção é estrelada por um Lázaro Ramos inspirado, que assume o papel de Walter, um médico anestesista que carrega o fardo cotidiano de ser um pai de família incapaz de dizer “não” a qualquer pessoa. A partir dessa premissa aparentemente simples, o espectador deve se preparar, pois a noite desse homem comum será bizarra, estranha, tensa e, acima de tudo, muito divertida. A narrativa se converte em uma ciranda de imprevistos em tempo real.

Infelizmente, a obra não encontrou o eco merecido nas salas de exibição em seu lançamento original. Acredito piamente que parte do insucesso comercial do longa-metragem nos cinemas se deu ao fato de ele ter sido promovido por um péssimo trailer de divulgação, uma peça de marketing sem nenhum tipo de atrativo ou dinamismo. Eu mesmo confesso que não acreditava no potencial do filme por conta dessa primeira impressão errônea. Todavia, a obra nacional Amanhã Nunca Mais está disponível em plataformas digitais e em DVD, garanto que a obra vale a espiada.
Ao assistir ao filme, o convite principal é tentar se imaginar na pele do coitado do Walter. No meio de um plantão médico exaustivo, ele se vê obrigado a atravessar a selva de pedra paulistana — com todos os seus personagens loucos e tipos excêntricos — apenas para cumprir uma promessa doméstica: buscar o bolo de aniversário de sua filha pequena. A grande vantagem para o espectador, no entanto, é que enquanto o protagonista sofre, nós estamos nos divertindo intensamente.
A direção de Tadeu Jungle abraça a estrutura da comédia de situações amalucadas com um ritmo ágil, usando a geografia sufocante de São Paulo como um labirinto opressivo e fascinante. O roteiro avança sem dar trégua, fazendo com que a audiência não se esqueça jamais daquela velha máxima popular que dita que “o que está ruim, ainda pode piorar”. Trata-se de uma pérola subestimada do nosso cinema que merece ser urgentemente redescoberta.
O DVD enviado para avaliação não contém Extras.


























