Dia #4 – Semana Internacional da Crítica – Festival de Veneza 2026
London (Brasil, 2026), de Márcio Picoli, Victor Di Marco
A força de London (Brasil, 2026), de Márcio Picoli, Victor Di Marco, longa-metragem de estreia da dupla e protagonizado pelo próprio Victor Di Marco, reside na recusa do melodrama conformista sobre a deficiência. Ao construir o protagonista homônimo a partir de uma independência feroz, a narrativa desloca o olhar viciado do espectador para investigar as fissuras entre a autonomia do corpo e a iminência do diagnóstico médico — uma ameaça clínica que London rejeita ativamente para não ter sua complexidade reduzida a um rótulo.
Esteticamente, a obra traduz esse conflito interno com brilhantismo visual por meio de uma marcante dualidade entre o dia e a noite. Durante as horas diurnas, London (Victor Di Marco) é retratado como uma figura apática, inseguro, fisicamente enfraquecida e visualmente marginalizada: a câmera o enquadra de forma assimétrica sempre nos cantos da tela, desapropriando-o do centro do quadro principal. O cenário se inverte drasticamente quando a noite cai. É sob a escuridão que o protagonista se monta, ganha confiança e assume a centralidade absoluta da imagem — uma força que espelha sua própria profissão em uma casa de fetiches, onde exerce a arte da dominação e o controle sobre pequenos e bizarros desejos sexuais.

A presença física e dramática de Di Marco sustenta a narrativa com rara intensidade, especialmente ao lidar com os caminhos múltiplos e imprevisíveis de seu personagem. Mesmo quando tem em mãos a resposta que o atormenta — o tal diagnóstico —, London opta por anulá-la, preferindo o terreno incerto da escolha individual à conformidade. Essa postura subverte o papel tradicional reservado aos marginalizados na ficção: em vez de apenas fazer coro com o canto dos excluídos, London aprende a subverter as possibilidades de não promover a invisibilidade e passa a aceitar o fato como uma vantagem estratégica, dentro da sua narrativa.
Ao apresentar esse instigante ponto de vista sobre identidade, corpo e soberania, London (o filme) se estabelece como uma das obras mais provocativas do cinema brasileiro recente. O impacto da produção já se reflete no circuito internacional e nacional, aqui integrando a Mostra Competitiva da Semana Internacional da Crítica no Festival de Veneza e figurando entre os 15 inscritos na busca pela indicação da Academia Brasileira de Cinema para o Oscar 2027.























