The Rolling Stones – Shine a Light (2008) de Martin Scorsese
O encontro entre titãs de diferentes expressões artísticas frequentemente resulta em obras que redefinem os limites de seus próprios gêneros. Quando o maior cronista visual do rock de Hollywood decide apontar suas lentes para a maior banda de rock em atividade no planeta, o resultado inevitável é um espetáculo avassalador. The Rolling Stones – Shine a Light (2008) estabelece-se na história do cinema não apenas como o registro de uma apresentação musical, mas como música pura para os olhos. Trata-se de um grande show capturado meticulosamente no intimista e elegante palco do Beacon Theatre, em Nova York, durante a histórica turnê de 2006, A Bigger Bang, e dirigido simplesmente pelo mestre Martin Scorsese.
Logo nas sequências iniciais que antecedem a abertura das cortinas, o espectador é tragado para os bastidores de uma adorável e tensa batalha de egos e metodologias de trabalho. Percebemos com clareza a inquietude quase neurótica de Scorsese, um diretor habituado ao controle milimétrico de seus sets de filmagem, que se vê desesperado ao não receber o set-list programado para a noite. Do outro lado do tabuleiro, há a preocupação legítima de Mick Jagger perante as exigências do público e da própria cenografia, sabendo que dezenas de câmeras pesadas estarão espalhadas pelo teatro em constante e agressivo movimento.
Sempre operando a favor do cinema como um espetáculo visual de primeira grandeza, o diretor ítalo-americano viaja na arquitetura clássica do cenário do teatro e insiste obstinadamente em saber pelo menos com quais acordes o show começará. Scorsese tenta a todo custo antecipar a ação do palco para coordenar a dinâmica técnica do espetáculo. Esse controle absoluto, a princípio, não acontece; em um jogo de mistério tipicamente roqueiro, Jagger só libera a lista definitiva das músicas minutos antes de subir ao palco. E mesmo sob o peso desse imprevisto, o cineasta prova sua genialidade ao demonstrar que estava plenamente preparado para filmar um dos melhores e mais viscerais shows já transpostos para a tela grande.

Do ponto de vista estritamente técnico, a produção é um deslumbre de engenharia cinematográfica. Há uma fantástica e coreografada movimentação de câmeras conduzida por diretores de fotografia premiados, amparada por uma iluminação majestosa que se converte em combustível para belíssimas sequências visuais. Um dos grandes momentos ocorre quando a lente se afasta para revelar o teatro inteiramente lotado e vibrando em uma catarse coletiva, ou quando as luzes dos refletores incessantemente se acendem em direção à plateia — gerando até uma reclamação bem-humorada de Jagger no microfone —, mas criando um efeito estético final digno de uma superprodução operística.
A montagem do longa também marca pontos preciosos ao longo de suas duas horas. A edição atua de forma inteligente, proporcionando pausas cirúrgicas no ritmo frenético do palco ao inserir cenas descontraídas de bastidores e, principalmente, costurar raras entrevistas históricas e hilárias que recontam, em breves pílulas de arquivo, os então 45 anos de estrada da banda.
Sendo ou não um fã fervoroso dos Rolling Stones, torna-se uma tarefa humanamente impossível não grelar os olhos e se impressionar com a apresentação vibrante daqueles roqueiros sessentões, que exibem uma vitalidade física que desafia as leis da biologia, em especial o carisma sempre esfuziante e elétrico de Mick Jagger.
Diante de tamanha potência sensorial, as definições tradicionais de formato perdem o sentido. É um filme? É um documentário de resgate? É apenas um show filmado? Tudo isso pode ser dito simultaneamente sobre The Rolling Stones – Shine a Light, mas a experiência de assisti-lo é resumida de forma muito mais justa em um único gesto espontâneo e merecido por parte do espectador: de pé e com aplausos calorosos.
INFORMAÇÕES ESPECIAIS:
O diretor Martin Scorsese é apaixonado por música. mmJá dirigiu o show O Último Concerto de Rock – The Last Waltz (1978), o videoclip Bad (1987), de Michael Jackson, e o documentário No Direction Home: Bob Dylan (2005). Vencedor do Oscar e Globo de Ouro por Os Infiltrados (2006), Globo de Ouro por Gangues de Nova York (2002), Leão de Prata em Veneza (diretor) por Os Bons Companheiros (1990), Palma de Ouro em Cannes (filme) por Taxi Driver (1976) e (diretor) por Depois de Horas (1985).


























