Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo (Seeking a Friend for the End of the World, 2012) de Lorene Scafalia
Com quem você gostaria de passar os últimos momentos da sua existência se o fim de tudo fosse um fato científico inescapável? Essa pergunta incômoda e existencial é a força motriz que permeia a narrativa de Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo (Seeking a Friend for the End of the World, 2012), obra curiosa que marca a estreia na direção de Lorene Scafaria em longas-metragens.
O filme se estabelece como uma dramédia romântica banhada por um inteligente humor ácido. É precisamente nessa ousadia tonal que reside a grande vantagem e o frescor da obra, que consegue entregar um resultado final digno, sensível e surpreendente ao tratar de temas tradicionalmente clichês — como a busca incessante pela alma gêmea ou a redenção afetiva — de uma forma completamente fora do usual e do esperado pela indústria cinematográfica.
O roteiro nos convida a acompanhar os últimos vinte e um dias de vida na Terra, após a notícia de que um asteroide colossal colidirá inevitavelmente com o planeta, frustrando qualquer plano de salvação da humanidade. Nesse cenário apocalíptico, cruzam-se os caminhos de Dodge, um homem profundamente desiludido com a vida e abandonado pela esposa diante do pânico global (interpretado com uma melancolia tocante por Steve Carell), e Penny, uma jovem britânica romântica e completamente perdida no mundo (vivida pela carismática Keira Knightley).

O longa propõe um encontro inusitado entre esses dois vizinhos de porta que, apesar de morarem há longos três anos no mesmíssimo prédio de apartamentos, jamais haviam trocado uma palavra sequer. Contudo, por obra do destino — ou seria pelas circunstâncias extremas do fim do mundo —, eles são empurrados para uma jornada conjunta de autodescoberta.
Dentro da engrenagem narrativa construída por Lorene Scafaria (As Golpistas, 2019; A Intrometida, 2015), há espaço para uma série de crônicas satíricas sobre o comportamento humano diante do abismo iminente. O filme retrata com acidez uma bizarra festa do fim do mundo na alta sociedade, que envolve a necessidade desesperada dos convidados de aproveitar todos os excessos e pecados possíveis antes que o relógio zere de vez.
A partir do segundo ato, a produção assume a estrutura clássica de um road movie, colocando a dupla de protagonistas na estrada em direção a um inevitável e doloroso acerto de contas familiar de Dodge com o seu passado.
Do ponto de vista técnico e cênico, o filme destaca-se ao fugir da espetacularização visual dos tradicionais filmes de catástrofe de Hollywood. Scafaria prefere focar nas pequenas interações humanas, no silêncio e na beleza sutil que surge quando todas as obrigações sociais cotidianas deixam de fazer sentido. A química adorável entre Steve Carell e Keira Knightley injeta uma dignidade honesta ao romance, fazendo com que a iminência da destruição pareça um mero detalhe diante da conexão real estabelecida entre os dois.
Ideal para ver em casa (DVD, Bluray ou streaming), Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo consolida-se como um divertimento interessante, agridoce e profundamente comovente sobre a urgência de estarmos verdadeiramente presentes para quem importa.


























