Delírio de Loucura (Bigger Than Life, 1956) de Nicholas Ray
Lançado no mercado de mídias físicas em DVD e Blu-ray pela distribuidora Classicline, o clássico muitas vezes esquecido do mestre Nicholas Ray, Delírio de Loucura (Bigger Than Life, 1956) — obra que conquistou uma merecida indicação ao prestigiado Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza —, finalmente recebe o resgate audiovisual que merece. Esta edição em altíssima definição surge como uma pedida absolutamente indispensável para os colecionadores e cinéfilos mais exigentes, permitindo apreciar com nitidez e fidelidade incomparáveis a soberba interpretação do icônico James Mason, a ótima e densa performance da bela Barbara Rush e a presença marcante de Walter Matthau em um de seus primeiros e mais notáveis papéis nas telas do cinema.
A narrativa acompanha Ed Avery (vivido de forma magistral por Mason), um pacato e respeitado professor de escola pública que se desdobra para ser um dedicado pai de família na classe média americana dos anos 1950. A estabilidade de sua rotina ruí quando ele descobre ser portador de uma doença rara e dolorosa, com o diagnóstico trágico de que possui apenas poucos meses de vida. Sua única esperança reside em aceitar um tratamento experimental baseado no uso contínuo de uma substância revolucionária para a época: a cortisona. O medicamento cumpre o seu papel de cura física imediata, devolvendo-lhe a disposição e a vitalidade; contudo, a verdadeira tragédia tem início logo após o seu retorno para casa. À medida que as doses aumentam, sua esposa Lou (Barbara Rush) e seu jovem filho Richie (Christopher Olsen, em um desempenho infantil surpreendentemente maduro e comovente) começam a sofrer intensamente com os devastadores efeitos colaterais psicológicos do remédio, que transformam o amoroso patriarca em um tirano egocêntrico, megalomaníaco e cada vez mais imprevisível.

É extremamente interessante notar como, ao longo do desenvolvimento do roteiro, o diretor Nicholas Ray (diretor de clássicos como Juventude Transviada, 1955; Johnny Guitar, 1954; e No Silêncio da Noite, 1950) conduz a narrativa para um último terço sufocante, onde há a adição gradual de uma crescente e insustentável tensão provocada pela psicose do protagonista. O suspense dramático atinge o seu ápice estético e emocional na fantástica e inesquecível cena em que o professor insiste obsessivamente que o filho resolva um complexo problema matemático na mesa, enquanto a esposa, aterrorizada, tenta servir o jantar o quanto antes para conter o surto do marido. Nesse momento, Ray demonstra sua genialidade técnica ao utilizar um jogo de sombras exuberante — vale notar com atenção a imponência e o tamanho da sombra do professor projetada na parede, que agiganta sua figura ameaçadora e engole os demais personagens no enquadramento, traduzindo visualmente a opressão daquele lar.

Para além de sua brilhante crítica ao estilo de vida americano e à dependência médica, a lição fundamental que perpassa a obra é a de que nada no mundo é maior do que a própria vida. O filme nos lembra de forma contundente que devemos lutar por ela em todas as circunstâncias, sobretudo quando se possui o apoio e o amor incondicional da família para superar os momentos de mais profunda escuridão. Trata-se de uma pérola do cinema cinematograficamente rica, cuja fotografia vibrante em Cinemascope ganha um brilho renovado na versão em Blu-ray da Classicline, consolidando o título como um item obrigatório em qualquer coleção física de respeito.
- Nos extras do Bluray: arte do cartaz original, a sinopse, curiosidades, clipe remix e trailers.


























