
Ghost – Do Outro Lado da Vida (Ghost, 1990) de Jerry Zucker
De orçamento modesto (US$ 22 milhões), Ghost: Do Outro Lado da Vida tornou-se o maior fenômeno cinematográfico de 1990 contrariando as expectativas da indústria. Para além do campo cinematográfico, foi um fenômeno cultural e conquistou plateias com uma mistura única de romance sobrenatural, drama, suspense e toques de humor.
A trama sobre a alma de um homem assassinado (Patrick Swayze) tentando proteger sua namorada (Demi Moore) com a ajuda de uma médium trambiqueira (Whoopi Goldberg) atraiu fortemente o público feminino e gerou um boca a boca massivo. O filme surpreendeu os estúdios ao arrecadar mais de US$ 505,7 milhões mundialmente (EUA e Canadá com US$ 217,6 milhões, e US$ 288,1 milhões nos outros países), garantindo a maior bilheteria global do ano de 1990.
Aquela temporada do Verão Americano estava repleta de superproduções e continuações que almejavam alcançar grandes bilheterias, como “De Volta Para o Futuro III”; “Duro de Matar 2”; “Gremlins 2”; “48 Horas 2”; “Robocop 2”; “O Exorcista III”; “O Vingador do Futuro”; “Dick Tracy”; “Dias de Trovão”; “Aracnofobia”; “Acima de Qualquer Suspeita”; “A Chave do Enigma” (continuação de Chinatown) e “Jovem Demais Para Morrer” (continuação de Jovens Pistoleiros). Entre alguns sucessos, boas arrecadações e fracassos, todos sucumbiram ao sucesso de “Ghost”.

O roteiro de Bruce Joel Rubin, que desde 1984 lutava para fazer o filme, foi considerado arriscado por misturar elementos sobrenaturais, drama, suspense, romance e até comédia. Para além da bilheteria, o sucesso da obra culminou em cinco indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, vencendo duas estatuetas (Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz Coadjuvante – Whoopi Goldberg), e quatro indicações ao Globo de Ouro (incluindo Melhor Filme – Musical ou Comédia), vencendo o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg).
Diretor dos Sonhos
Diretor dos sonhos do roteirista era Milos Forman (Oscar de Melhor Filme por Um Estranho no Ninho e Amadeus) ou Stanley Kubrick (Barry Lyndon, 2001 – Uma Odisseia no Espaço, O Iluminado), certamente duas escolhas de peso artístico para o projeto.
Mas quem primeiro se aproximou da produção foi Frank Oz (A Pequena Loja de Horrores, 1986; Os Safados, 1988), que chegou a ser vinculado ao filme. Quando leu o roteiro, o diretor apontou que o filme só funcionaria se a sombra de Sam fosse apagada digitalmente quando ele se tornasse um fantasma, o que teria inflado enormemente o orçamento.
Contudo, quem queria mesmo assumir o filme, e se provou disposto e disponível era Jerry Zucker. Até então, só tinha dirigido outros filmes em companhia do seu irmão – David Zuker – e o amigo Jim Abrahams, formando o trio de filmes cômicos ZAZ. A ideia era finalmente assinar um filme de forma solo, pela primeira vez.
Mas o roteirista Bruce Joel Rubin ficou horrorizado com a ideia de que o diretor de comédias pastelão, como “Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu!” (1980) e “Corra que a Polícia Vem Aí!” (1988), transformasse a história delicada que ele havia idealizado em “Ghost”. Até conhecê-lo e mudar de ideia. Desde o primeiro encontro, o escritor achou em Jerry Zucker uma figura profundamente filosófica e engraçada.

Astros recusaram o filme
O estúdio sugeriu um nome de peso para o protagonista e o roteiro foi oferecido à dezenas de estrelas — incluindo Paul Hogan (recém saído do sucesso de “Crocodillo Dundee” e sua continuação – 1986 e 1988), Tom Cruise, Harrison Ford (que recusou para estrelar o thriller de tribunal, “Acima de Qualquer Suspeita”), Tom Hanks (preferiu fazer “Joe Contra o Vulcão”, que fracassou), Alec Baldwin (priorizou a adaptação de “Caçada ao Outubro Vermelho”), Kevin Bacon e Bruce Willis (que achava que o filme não daria certo) — receberam a oferta do roteiro, mas o recusaram porque interpretar um fantasma passivo parecia pouco atraente.
Alinhando as expectativas com a Paramount, a escolha ideal para o diretor era Kevin Kline. O ator acabara de ganhar um Oscar de Coadjuvante por “Um Peixe Chamado Wanda” (1988), e chegou a ser atrelado ao projeto.
Até Patrick Swayze implorar pelo papel, por indicação do roteirista. A sugestão do nome veio depois dele ter assistido uma entrevista do ator, onde ele chorava quando falava sobre o pai. Rubin disse que, se um cara estilo machão pode chorar por um ente querido, ele é perfeito para Ghost. Como o diretor Jerry Zucker não colocava fé num ator que havia feito filmes como “Matador de Aluguel” (1989) e “Dirty Dancing” (1987), ele foi o único que realizou teste de cena para o papel de Sam Wheat. O resultado é que o teste foi altamente emocional e Swayze foi contratado na hora.

Oda Mae Brown
Diretor e roteirista também consideraram a ideia de escalar Tina Turner, Oprah Winfrey ou Patti LaBelle para interpretar Oda Mae Brown. Contudo, eles seguiram uma espécie de “intuição” ao aceitar a indicação de Patrick Swayze para ser Whoopi Goldberg. Todos eles estavam certos. Naquela temporada, a atriz conquistaria Oscar e Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel.
Na primeira versão do roteiro, Bruce Joel Rubin apresentou Oda Mae como uma verdadeira vidente. Mas os produtores acharam que seria mais engraçado se ela fosse uma charlatã que começasse a ouvir Sam. E de todos os personagens que o roteirista escreveu, Oda Mae Brown continua sendo sua favorita.
Molly, a viúva
Molly Ringwald foi escolhida e recusou o papel da viúva. Em seguida, Michelle Pfeiffer e Meg Ryan foram cogitadas, mas declinaram do roteiro. Nicole Kidman enviou uma fita que impressionou o diretor, enquanto Julia Roberts fez testes de câmera e era a favorita do roteirista, mas os produtores acabaram achando que Demi Moore era a escolha perfeita, pois conseguia se emocionar e chorar com qualquer um dos olhos.

O icônico corte curto de Demi Moore em Ghost (1990) aconteceu por vontade própria da atriz, após ser escolhida para o papel. Ela carregava há anos uma foto da atriz Isabella Rossellini com um elegante corte pixie (estilo Joãozinho) na carteira, esperando o momento certo para aderir ao look. Durante uma viagem de férias em Paris com o então marido Bruce Willis e um bebê recém-nascido, por impulso, entrou em um salão local sem falar francês, mostrou a foto ao cabeleireiro e cortou o cabelo.
Lá atrás, no primeiro encontro com o diretor Jerry Zucker para o filme, Demi ainda exibia suas madeixas longas. Quando apareceu para iniciar os trabalhos com o corte novo (e curto), causou desespero e susto na equipe inicialmente, pois o diretor imaginava a personagem Molly com cabelos longos e escuros. Contudo, o visual casou bem ao de “artista ceramista”, e virou tendência com o sucesso do filme.
Estratégia das salas de cinema
Patinho feio da Paramount no Verão Americano de 1990, “Ghost” teve o trailer divulgado antes de “Dias de Trovão” (1990), com Tom Cruise. O romance sobrenatural estreou no meio de julho para “segurar” as salas até a estreia de “A Chave do Enigma” (continuação do clássico “Chinatown”), em agosto.
Mas “Ghost” caiu nas graças do público a ponto de receber de volta as telas não apenas do policial dirigido e estrelado por Jack Nicholson, um fracasso retumbante nas bilheterias, além de outras salas de cinemas que antes exibiam “Dias de Trovão”, do qual o público perdeu o interesse antes do previsto. Ou seja, as duas grandes apostas de bilheteria do estúdio curvaram-se para o sucesso mais inesperado do ano.

Cena de amor seria outra
A cena da cerâmica deveria ser, originalmente, apenas um prelúdio breve e inocente para uma cena de amor mais explícita no chão. No entanto, o diretor Jerry Zucker achou a interação espontânea e sensual ali tão inerentemente erótica que descartou completamente a cena planejada para o quarto.
A peça de cerâmica não deveria ter desmoronado, mas Swayze e Moore estavam simplesmente tão envolvidos pelo momento que continuaram a agir, o que levou acidentalmente ao icônico colapso da peça coberta de argila.
Diretor deixou rolar
Por conta de todo esse envolvimento natural gerado pela cena, o diretor Jerry Zucker manteve as câmeras rodando. O que se viu foi uma química espontânea entre Patrick Swayze e Demi Moore tão arrebatadora e inesperada, que se transformou um momento romântico menor em uma sequência cinematográfica lendária. A equipe acabou perdendo a conta de quantas tomadas foram necessárias para filmar a icônica cena da cerâmica.

Cursos de cerâmica viraram moda
Demi Moore queria que a cena da cerâmica parecesse autêntica, então ela e o diretor Jerry Zucker tiveram aulas de cerâmica. Impacto no mundo real: a romantização do uso do torno de cerâmica provocou um enorme aumento, em escala global, nas matrículas em cursos de cerâmica.
Unchained Melody
A Trilha Sonora Original é assinada por Maurice Jarre, mas uma música antiga roubou a cena. A música usada para a cena de cerâmica entre Sam e Molly é “Unchained Melody”, escrito por Alex North e Hy Zaret para um filme de prisão (Fuga Desesperada, 1955). Em Ghost, a versão é executada por The Righteous Brothers, que alcançou o 4º lugar na parada Billboard Hot 100 em 1965.
Mas anos depois, ao ser utilizado em “Ghost”, virou um sucesso em todo o mundo (sendo #1 em vários países), transformando o cover dos The Righteous Brothers na versão definitiva da música, além de um ícone geracional.
Sons Horríveis
Os sons horríveis emitidos pelas “sombras escuras” e os demônios fantasmagóricos (nas mortes dos vilões) são na verdade, os sons dos gritos dos bebês tocados em numa variação de uma velocidade extremamente lenta para trás, e depois em alta rotação.

Ausência de CGI e uso de efeitos práticos
Todos os efeitos espectrais — como os demônios-sombra fantasmagóricos, pessoas atravessando objetos e almas ascendendo — foram realizados utilizando técnicas tradicionais e práticas de impressão óptica diretamente na câmera. Foram empregadas exposições sobrepostas, rotoscopia e animação em stop-motion, ao invés de computadores.
Emoção Real
Na despedida, onde Sam diz a Molly que ele sempre a amou, Patrick Swayze foi 100% real em emular seus sentimentos, pois ele interpretou pensando numa suposta conversa final com seu próprio pai, que faleceu em 1982.

Bilheteria Surpresa
Estima-se que 75% do público que viu esse filme em seu lançamento nos cinemas eram mulheres, além disso, se mostrou popular como filme para encontros. O sucesso deste filme, junto com “Uma Linda Mulher” (que estreou em março de 1990), é creditado por tornar os filmes românticos mais viáveis nas bilheterias.
Continuação?
Paramount Pictures se surpreendeu tanto com o sucesso financeiro e crítico do filme que até analisou a possibilidade de criar uma sequência. No entanto, diretor Jerry Zucker, escritor Bruce Joel Rubin e as estrelas Patrick Swayze, Demi Moore, e Whoopi Goldberg, todos acharam uma péssima ideia. Como nenhum deles havia assinado para uma possível sequência, a Paramount abandonou a ideia.
Videoteca
Minha recomendação é de ter Ghost – Do Outro Lado da Vida (1990) em Mídia Física (disponível em DVD ou Bluray), mas para quem deseja apenas assistir em streaming, vamos lá.
- Paramount+: Disponível no catálogo para assinantes.
- Netflix: Disponível no catálogo.
- Mercado Play: Disponível de graça com anúncios na plataforma do Mercado Livre.























