Frankenstein (Frankenstein, 2025) de Guillermo Del Toro + Entrevista
Guillermo Del Toro sempre olhou para as sombras não com medo, mas com uma profunda e empática curiosidade. Hoje, ele é amplamente reconhecido como a voz definitiva que ecoa e defende os monstros em Hollywood. Essa consagração não veio por acaso. O cineasta mexicano já conquistou os maiores louros da indústria, incluindo o Oscar de Melhor Diretor e Melhor Filme por A Forma da Água (2017), também vencedor do Festival de Veneza (Leão de Ouro) e Globo de Ouro de direção — um autêntico conto de fadas (ou seria história de amor?) com uma criatura anfibológica.
Mas isso não é de agora. Desde a sua estreia no cinema (Cronos, 1992), Del Toro lança obras de terror com uma assinatura visual e narrativa inconfundível, vide A Espinha do Diabo (2001) e O Labirinto do Fauno (2006). É, essencialmente, um homem fascinado pelo gênero, e sua nova incursão pelo mito do clássico literário de Mary Shelley nos presenteia com uma nova versão de Frankenstein (2025), tão bela visualmente quanto arrebatadora em seu tutano cinematográfico.

Mesmo sendo produzido pela Netflix, com o intuito de ser um dos grandes lançamentos do seu catálogo ainda em 2025, a obra se qualificou para disputar as principais premiações da temporada com uma janela de estreia na tela grande (Globo de Ouro e Oscar).
Para além da produção grandiosa e bela, com figurinos suntuosos, paleta de cores que contam sua história, e cenários gigantescos, seu maior triunfo reside no resgate do questionamento filosófico central da obra de Shelley: quem, na verdade, é a criatura? Seria o ser costurado a partir de pedaços de cadáveres, que apenas busca afeto e compreensão em um mundo que o rejeita, ou o próprio Victor Frankenstein, cuja ambição desmedida e vaidade intelectual o transformam em um arquétipo de negligência e crueldade? Del Toro filma a Criatura não como uma aberração, mas como um espelho da nossa própria fragilidade humana.
O filme deixa de ser apenas mais uma adaptação literária para se tornar um manifesto pessoal. Ele simboliza o momento de plenitude de um autor que conseguiu dobrar o sistema de Hollywood sem perder a sua alma. Ao dar vida ao clássico de Mary Shelley sob a sua ótica única, Guillermo del Toro não apenas nos entrega uma obra-prima técnica e poética, mas também responde, com a maturidade de sua carreira, à sua relação íntima, eterna e terna com os monstros que o acompanham desde a infância. Uma vitória da arte perante o sistema.

Mutação (1997): o passo em falso
Para compreender a magnitude e a pureza artística deste novo Frankenstein, é preciso voltar no tempo, mais precisamente para o ano de 1997. Naquela época, a primeira experiência de Del Toro em Hollywood, com o filme Mutação (Mimic), transformou-se em um verdadeiro pesadelo de interferência corporativa. Os produtores da Miramax alteraram drasticamente sua visão criativa na versão final que chegou aos cinemas, mutilando o ritmo e a essência da história. Foi um batismo de fogo doloroso que quase o fez desistir da indústria norte-americana.
Partindo desse ponto, até chegar ao seu último projeto, Frankenstein (2025), o Clube Cinema teve a oportunidade de estar em uma mesa virtual de conversa com o cineasta, e chegamos à esse questionamento.
Quase 30 anos depois, o cenário é completamente diferente. Estabelecido no mercado mundial e reverenciado por seu talento único de dar dignidade e voz aos monstros no cinema, Del Toro encontrou na sua parceria com a Netflix o porto seguro ideal. Depois do sucesso com outra adaptação – vencedora do Oscar de Melhor Animação (Pinóquio, 2022) – o modelo de produção do streaming deu carta branca para sua visão de Frankesntein.

Sua parceria criativa com a Netflix parece que preservou a sua integridade artística nesta nova adaptação de Frankenstein, como sempre sonhou em realizar. Como você percebe este momento da sua vida, e a sua relação íntima com os monstros?
GUILLERMO DEL TORO: 0Acho que a única experiência ruim que tive em 30 anos de carreira nos EUA foi exatamente em Mutação (Mimic, 1997). Só essa. E foi porque eu estava em uma das piores máquinas de moer filmes que já existiram, que era a Miramax [dos irmãos Harvey e Bob Weinstein]. A forma como destruíram carreiras foi sistemática. Então, infelizmente, naquele momento, não fui a exceção à regra.
Mas naquela época, era muito difícil dizer isso porque todos idolatravam a Miramax. Todos pensavam que eles eram os padroeiros do Cinema, e eu era apenas um cineasta mexicano de 30 e poucos anos. Mas veja, eu sobrevivi, estou aqui. E você tem razão quando diz isso.
Com a Netflix, francamente, com o apoio de Ted Sarandos [CEO da produtora de Streaming], que acreditou em mim e disse: “Me dê sua lista de desejos. O que você quer fazer a seguir?”, e me deu não apenas total liberdade, mas também enxergou os filmes na mesma escala que eu. Frankenstein é uma grande ópera, um grande empreendimento. E em nenhum momento fui questionado sobre a maneira como abordei o material, que é muito pessoal e muito emocional.
Então, sabe, eu vejo este momento como um terceiro ato perfeito, espero, [risos] da vida, sabe? Hitchcock costumava dizer que, para ele, a felicidade era a ausência de nuvens no céu. E eu desejo e espero que esse seja o meu momento. A gente nunca sabe… A vida nos reserva surpresas. Mas para mim, é um momento de ouro. Para mim, é praticamente o oposto da época de Mutação (1997).


























