À Toda Prova (Haywire, 2011) de Steven Soderbergh
Dentro do panorama do cinema contemporâneo, poucos cineastas possuem um histórico tão versátil e imprevisível quanto o oscarizado Steven Soderbergh. Conhecido por transitar com extrema naturalidade entre dramas densos e premiados como Traffic (2000), comédias de assalto requintadas da franquia Onze Homens e um Segredo (1, 2 e 3) e experimentos estéticos independentes de baixo orçamento, Soderbergh sempre enxergou o cinema como um laboratório de testes formais.
Em À Toda Prova (Haywire, 2011), o diretor decide canalizar sua inquietude artística para o cinema de pancadaria pura, concebendo uma fita de ação que mistura a crueza das artes marciais mistas (MMA) com as dinâmicas clássicas das intrigas internacionais de espionagem.
O grande chamariz do projeto reside na escolha de sua protagonista. Em vez de escalar uma atriz consagrada de Hollywood e cobrir suas limitações físicas com dublês e cortes rápidos na montagem, o diretor apostou na própria lutadora real de MMA, Gina Carano. A narrativa, estruturada a partir de um longo flashback, descortina os motivos que transformaram essa assassina profissional — que evoca imediatamente o arquétipo de uma Nikita moderna — em um alvo em fuga constante que busca simultaneamente a sua vingança contra aqueles que a traíram.

O grande trunfo técnico de Soderbergh está na recusa em higienizar os combates. As cenas de ação são brutais, coreografadas com um realismo seco e desprovidas de trilha sonora invasiva; ouvimos apenas o impacto chocante dos ossos contra o chão. Para dar sustentação dramática a Carano, o diretor recrutou um elenco estelar impressionante que inclui nomes do calibre de Michael Douglas, Antonio Banderas, Michael Fassbender, Ewan McGregor e Channing Tatum. Cada um desses atores de primeira grandeza surge em tela como peças de um xadrez geopolítico, funcionando como os antagonistas ou aliados ambíguos na jornada da espiã.
No entanto, o filme assume de forma muito clara um despretensioso teor de passatempo de luxo. Soderbergh parece menos interessado em revolucionar o gênero e mais focado em se divertir com as suas convenções mecânicas. Essa postura faz com que a aventura, embora tecnicamente tensa e precisa, demonstre como um conceito cru e físico pode acabar se transformando em um produto pasteurizado pelo formato dos blockbusters de estúdio.

O saldo é irregular. O que ostentava potencial para se firmar como uma espécie de “Jason Bourne de saias” carece de uma densidade dramática que amarre o espectador emocionalmente. Trata-se de um filme apenas ok, que funciona perfeitamente como um entretenimento rápido para uma noite chuvosa, mas que empalidece diante das obras mais viscerais de seu próprio criador.

























