Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (2012) de Timur Bekmambetov
A mistura de gêneros cinematográficos está cada vez mais comum no cinema contemporâneo, funcionando muitas vezes como um sopro de criatividade para fórmulas desgastadas. Contudo, essa tendência ganha um contorno bizarro quando decide alterar fatos históricos cruciais a favor de uma ideia absurda: envolver criaturas da noite com a fundação da história americana, mais precisamente modificando a biografia do icônico Presidente Abraham Lincoln.
Produzido por Tim Burton e dirigido pelo costumeiramente exagerado Timur Bekmambetov, Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros (2012) é a transposição para as telas do livro homônimo de Seth Grahame-Smith, adaptado pelo próprio autor. A narrativa inicia-se em 1865, antes de retroceder à infância de Lincoln — interpretado por um Benjamin Walker assustadoramente insosso e apático —, empenhando-se em demonstrar as razões traumáticas que o levaram a se transformar em um executor de sanguessugas.
Pois é. Se a premissa já soa risível no papel, a execução na tela consegue a proeza de piorar o cenário. O espectador é bombardeado por diálogos ruins e artificiais, inseridos dentro de uma história que simplesmente não empolga em nenhum minuto de suas duas horas de projeção. O roteiro tenta impressionar a audiência com cenas pirotecnicamente tão excessivas e poluídas que se torna humanamente impossível acompanhá-las com clareza. Uma das piores demonstrações desse excesso ultrajante e de efeitos especiais visivelmente fracos e inacabados é a sequência de perseguição e confronto físico ridículos encenada em meio a uma debandada digital de cavalos. A computação gráfica falha terrivelmente, destruindo qualquer senso de peso ou física real.

Diante de tamanha bagunça visual, fica o questionamento inevitável: para que serve tanto barulho? A resposta é dolorosa, pois conteúdo dramático e substância narrativa inexistem por trás da fumaça dos tiroteios e golpes de machado. Até mesmo a relação do protagonista com um amigo de infância, papel defendido por Anthony Mackie apenas para bater o ponto e garantir o cachê, carece de qualquer profundidade. O roteiro é tão preguiçoso que, quando o personagem reaparece na idade adulta, a direção insere um pequeno flashback didático e redundante de uma cena anterior apenas para demonstrar como ele adquiriu um ferimento específico, um recurso tosco para avisar aos espectadores menos atentos de que se trata da mesma pessoa. Essa amizade, que deveria ancorar o lado humano de Lincoln, nunca parece sólida ou genuína.
No meio desse deserto de ideias e atuações esquecíveis, os únicos nomes que minimamente escapam do desastre completo são Mary Elizabeth Winstead, que confere alguma dignidade à esposa do presidente, e Dominic Cooper, encarnando o mentor na arte de retalhar monstros. Cooper, contudo, é obrigado a carregar nas costas um segredo de roteiro que se estabelece como um dos mais óbvios e “na cara” de todos os tempos. No lado dos antagonistas, Rufus Sewell tenta criar um vilão temível e imponente, mas falha miseravelmente; sua performance não passa de uma pura caricatura de maldade genérica moldada em forma de nada.
Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros consolida-se como uma aventura de suspense bizarra, arrastando-se até uma sequência final no trem que não se revela nada recompensadora para quem aguentou o filme até ali. Se o exagero estético e a câmera lenta incessante são as marcas registradas do estilo do diretor Timur Bekmambetov, seria de bom tom que ele pelo menos soubesse dosar a mão na feitura de seus planos, porque do jeito que o material foi entregue na montagem, o resultado torna-se esteticamente incompreensível.
O longa-metragem entra sem pedir licença na lista dos piores filmes do ano, apresentando ainda um uso de efeitos 3D dos mais simplórios e picaretas possíveis, limitando-se a arremessar objetos em direção à tela para assustar o espectador de forma barata. Uma obra esquecível, vazia e que falha tanto como documento histórico ficcional quanto como puro cinema de entretenimento. E só.


























