“Até que a Sorte nos Separe” (Idem, 2012) de Roberto Santucci
O mercado audiovisual brasileiro frequentemente encontra nas comédias de apelo popular o seu motor de sobrevivência econômica, arrastando milhões de espectadores para as salas de exibição. No entanto, o sucesso comercial absoluto e as bilheterias estrondosas não devem servir como um escudo de imunidade crítica. Quando analisamos o fenômeno de Até que a Sorte nos Separe (2012), dirigido por Roberto Santucci, fica uma constatação incômoda e inevitável: mesmo passando com um êxito avassalador pelos cinemas de todo o país, a produção simplesmente não parece possuir nível cinematográfico elementar, operando muito mais como um produto televisivo esticado do que como sétima arte.

Sendo bastante direto, não dá para dizer que a obra é exatamente cinema. A estrutura do longa se resume, do início ao fim, a um amontoado caótico de situações forçadas que dependem única e exclusivamente do humor físico e das caretas de Leandro Hassum. O roteiro, vagamente inspirado em um livro de finanças pessoais, patina em uma premissa simplória: um casal de classe baixa ganha uma fortuna na loteria, mas, devido à total falta de controle emocional, gasta absolutamente tudo ao longo de uma década. Quando o esposo descobre que está completamente falido, ele se vê impossibilitado de revelar a verdade à esposa (Danielle Winits), pois ela enfrenta uma gravidez de risco. A solução desesperada encontrada pelo protagonista é tentar reaprender a economizar com a ajuda de seu vizinho pragmático, um consultor de economia que o detesta profundamente.
A partir desse imbróglio doméstico, o que testemunhamos na tela é uma sucessão ininterrupta de piadas toscas e de um gosto bastante duvidoso. No quesito atuações, o cenário é desolador; para ser sincero, não há atuações reais e ponto final. O elenco parece perdido em meio a diálogos artificiais e gritos histriônicos, onde a sutileza dramática é completamente soterrada pela necessidade de arrancar a gargalhada imediata do público a qualquer custo.

Do ponto de vista estritamente técnico, temos uma produção simples. A fotografia é lavada, sem profundidade ou intenção artística, assemelhando-se à iluminação genérica dos programas de auditório. Para quem consome e aprecia humorísticos televisivos da Globo, na linha de Zorra Total ou Os Caras de Pau, o nível estético apresentado aqui é do mesmíssimo nível de entrega. O filme abdica de qualquer linguagem visual propriamente cinematográfica, contentando-se em ser uma esquete de canal aberto projetada em uma tela grande, mas com grande sucesso de bilheteria. Uma obra comercialmente vitoriosa, tanto que seguiu com duas sequências de êxito parecido, mas artisticamente nula.
Em DVD (ou no streaming), pelo menos, o consumo fica mais fácil, porque para mim mesmo, isso aqui não é cinema.


























