Babygirl (2024) de Halina Reijn
As dinâmicas de poder no ambiente corporativo e a frieza das salas de reunião são cenários perfeitos para esconder os desejos libidinosos mais ocultos. Em Babygirl (2024) de Halina Reijn, somos apresentados a uma poderosa executiva que, apesar de ter o controle absoluto de sua carreira e de sua vida pública, encontra-se profundamente frustrada sexualmente. A virada de chave em sua existência ocorre quando ela descobre na submissão consensual uma forma radical de liberar sua severa repressão sexual. Assinado por uma mulher, que lhe confere ainda mais sensibilidade no olhar da história, o longa-metragem se propõe a ser um estudo provocativo sobre controle, vulnerabilidade e fetiche, mas o que realmente sustenta a produção e a eleva ao status de obra imperdível é a atuação avassaladora de sua protagonista.
Nicole Kidman entrega aqui uma daquelas performances que marcam carreiras, demonstrando uma coragem e uma entrega — literalmente de corpo e alma — que fazem toda a diferença para o resultado final do filme. O tom elogioso à sua atuação não é um exagero da crítica: Kidman se despe de qualquer vaidade ou zona de conforto para traduzir a dualidade de uma mulher que comanda impérios durante o dia e implora para ser comandada à noite. Sua linguagem corporal, que transita entre a rigidez de uma CEO implacável e o desabamento físico de quem finalmente se entrega ao prazer da perda de controle, é de um magnetismo hipnotizante. É a entrega visceral de Kidman que ancora o filme na realidade psicológica, impedindo que a trama caia no mero exploitation ou no ridículo.
A atuação de Nicole Kidman não é apenas o ponto alto de Babygirl, é também a força gravitacional que impede o longa de se dispersar em suas próprias ambições conceituais.

Essa crueza ganha contornos específicos sob a assinatura visual e temática da direção. O filme carrega a marca de um cinema que não tem medo de incomodar, utilizando enquadramentos clínicos e uma paleta de cores que mimetiza a frieza do mundo dos negócios para contrastar com o calor claustrofóbico dos encontros sexuais. Há uma clara intenção do diretor em desmistificar o erotismo de escritório, transformando o espaço de trabalho em um labirinto de tensões psicológicas. A câmera foca nos detalhes — o suor, o tremor das mãos, o olhar tenso de Kidman —, revelando um olhar autoral focado na desconstrução do poder feminino face aos impulsos mais primevos.
No entanto, o filme encontra seus maiores desafios justamente quando tenta equilibrar a balança. Para que o jogo de dominação funcione plenamente na tela, é preciso que a eletricidade flua nos dois sentidos. Embora a dinâmica com Harris Dickinson, o seu jovem parceiro de cena, tenha momentos de inegável voltagem e uma química quente, há momentos em que Kidman parece carregar o peso dramático das cenas eróticas e psicológicas quase sozinha. O contraponto masculino carece, por vezes, da mesma densidade e complexidade que a atriz injeta em cada frame, fazendo com que o embate pareça desigual.

Essa oscilação culmina em um terceiro ato que não entrega o impacto esperado. Da mesma diretora do filme de horror, Morte, Morte Morte (2022), Halina Reijn, o filme carece de um final mais forte e arrojado, que sustentasse a escalada de tensão construída até ali. Em vez de explodir em uma resolução catártica ou em um debate verdadeiramente subversivo sobre o papel da mulher e do fetiche na sociedade moderna, a narrativa opta por caminhos ligeiramente mais seguros, atenuando a discussão que prometia ser revolucionária. Ainda assim, graças ao espetáculo particular e corajoso de Nicole Kidman, Babygirl se firma como um thriller erótico de respeito, que desafia o puritanismo contemporâneo através da entrega absoluta de sua estrela.

























