Sentimento de Culpa (Please Give, 2010) de Nicole Holofcener
Esta revisão propõe um novo olhar sobre Sentimento de Culpa (Please Give, 2010), celebrando a sensibilidade bonita que o filme carrega agora que completamos 15 anos após o seu lançamento original.
Escrita e dirigida de forma brilhante por Nicole Holofcener, a obra se estabelece como um drama com toques cômicos pontuais — o tipo exato de produção que costumamos chamar de dramédia. Longe de ser apenas mais um filme passageiro, o longa revela-se uma produção excepcional, capaz de extrair uma profunda doçura humana de dilemas morais cotidianos.
A trama acompanha a jornada interior de Kate (vivida pela espetacular Catherine Keener), uma mulher que lida com o persistente sentimento de culpa por ganhar dinheiro comprando móveis e objetos pessoais de famílias que acabaram de perder seus parentes idosos, revendendo-os por valores inflados em sua boutique de antiguidades. É uma história inteligente que bate nas engrenagens do capitalismo moderno e mostra os dois lados dessa delicada situação: o ato de saber ganhar e a dor de perder. Em paralelo, a cineasta constrói uma narrativa tocante sobre a necessidade urgente de inserir valores éticos na criação da filha adolescente.

O maior trunfo do longa reside na honestidade e na sensibilidade bonita com que os dilemas interiores da protagonista são externados entre sua família e seus clientes. Os diálogos são extraordinários e conduzem a história com uma fluidez admirável. Além da performance visceral de Keener, o elenco brilha em perfeita sintonia. Oliver Platt entrega uma atuação segura como o marido que vive sem culpas, enquanto Rebecca Hall transborda bondade na pele de uma radiologista de bom coração. Amanda Peet surge linda de morrer como a irmã esteticista de coração de pedra, e a talentosa Sarah Steele encarna com precisão a filha rebelde. Como ponto fraco, talvez a grande quantidade de personagens secundários dilua um pouco o drama pessoal da protagonista, mas nada que tire o brilho da obra.
Apreciar todos os segundos e sentidos desse ótimo conceito provoca um sentimento extremamente prazeroso no espectador. Embora os extras da mídia física sejam minguados, trazendo apenas um curto making of e um bloco de perguntas e respostas com a diretora, a qualidade do filme em si compensa qualquer ausência. Sentimento de Culpa é uma joia acolhedora que nos ensina a olhar para as nossas próprias falhas com mais empatia e humanidade, provando que o tempo só fez bem à sua mensagem. Sentimento de culpa de verdade é se você deixar de assistir a esse grande filme.


























