O Homem do Norte (The Northman, 2022) de Robert Eggers
O diretor Robert Eggers surpreendeu o mundo há mais de uma década ao fazer a sua estreia no cinema com o aclamado A Bruxa (2015). Naquela ocasião, o cineasta entregou um belíssimo suspense folclórico ambientado na Nova Inglaterra da década de 1630, narrando a história de uma família puritana dilacerada pelas forças ocultas da feitiçaria, da magia negra e da possessão. Eggers estabeleceu ali a sua assinatura ao criar uma obra inteiramente construída a partir do medo psicológico constante e não no susto fácil (jumpscare), amparada por pesquisas históricas meticulosas, expressões coloniais e um forte embate entre as simbologias cristãs versus pagãs.
Após expandir esse estilo autoral no claustrofóbico O Farol (2019), o realizador decidiu dar um salto monumental em escala e orçamento em O Homem do Norte (The Northman, 2022), e o Brasil recebe sua versão em alta definição agora.
Neste thriller épico de vingança, o cineasta transpõe o seu olhar antropológico e obsessivo para a brutal Era Viking. O roteiro mergulha na jornada implacável do príncipe Amleth (vivido de forma animalesca por Alexander Skarsgård), explorando o quão longe esse guerreiro exilado irá para buscar justiça pelo assassinato de seu pai, o rei Aurvandil, covardemente traído e executado pelo próprio irmão. Para dar vida a essa tragédia nórdica primitiva que serviu de inspiração direta para o clássico Hamlet de Shakespeare, Eggers reuniu um elenco estrelar de primeira grandeza que inclui nomes de peso como Anya Taylor-Joy, Nicole Kidman, Ethan Hawke, Willem Dafoe e uma participação mística da cantora islandesa Björk.

Do ponto de vista puramente técnico, a produção é um verdadeiro deslumbre de imersão cultural e selvageria. Eggers recusa-se a romantizar ou higienizar o universo dos nórdicos, entregando batalhas campais brutais filmadas em longos planos-sequência que capturam o peso real das espadas, a lama e a fúria cega dos guerreiros berserkers. A fotografia, que aproveita ao máximo a luz natural e os tons cinzentos das paisagens hostis da Islândia, cria uma atmosfera pesada e opressiva.
O grande trunfo do diretor está em tratar a mitologia daqueles povos não como elementos de fantasia distanciados, mas como a realidade absoluta na qual os personagens acreditam piamente. Valquírias, visões de divindades e rituais de sangue são integrados à narrativa com o mesmo peso de realismo de uma ferida aberta. O Homem do Norte consolida-se como um triunfo cinematográfico avassalador, provando que Robert Eggers é plenamente capaz de domar as grandes engrenagens de Hollywood sem abrir mão de sua essência autoral e perturbadora.


























