Homem com H (2025) de Esmir Filho
Homem com H (2025) firma-se no panorama do cinema brasileiro não apenas como um tributo reverente, mas como um retrato pulsante e visceral da trajetória de um dos artistas mais revolucionários da nossa cultura: Ney Matogrosso. Sob a direção precisa e inspirada de Esmir Filho, o longa-metragem esquiva-se das armadilhas convencionais do gênero cinebiográfico. Em vez de entregar um mero apanhado cronológico e impessoal, o cineasta constrói um espetáculo sensorial que entrelaça o intimista e o espetacular, capturando a essência de um homem que transformou a própria existência em uma permanente declaração de liberdade.
A estrutura narrativa do filme adota um movimento muito inteligente ao dividir seu olhar em dois eixos fundamentais. Primeiro, a fita mergulha nas raízes e na vida pessoal de Ney, explorando a juventude marcada pela incompreensão familiar, o choque inevitável com a figura rígida do pai militar e a descoberta dolorosa — porém libertadora — da própria identidade. É nesse espaço privado que o roteiro expõe a vulnerabilidade, o desejo de transgressão e a busca incessante por pertencimento de um jovem que se recusava a caber nas molduras impostas pela sociedade.

A partir desse alicerce íntimo, o filme passa a conduzir o espectador pela ascensão artística do cantor, pontuando sua evolução ao longo das décadas sem nunca soar enciclopédico ou frio. Vemos o surgimento arrebatador na década de 1970 com o fenômeno Secos & Molhados, quando Ney chocou e fascinou o Brasil em plena ditadura militar, seguido por sua consolidação em carreira solo nos anos 1980 e 1990. Cada fase da sua discografia é apresentada não como simples marcos históricos, mas como atos de metamorfose estética, onde a música e o corpo funcionam como instrumentos de resistência e poesia visual.
O grande coração da produção, no entanto, pulsar com força máxima na atuação assombrosa de Jesuíta Barbosa. O ator constrói um trabalho de entrega absoluta, dos olhos aos trejeitos, passando pela voz e remelexo – tão característico do cantor. Potente em presença por conseguir reproduzir a fisicalidade única, a androgenia hipnotizante e a intensidade emocional quase xamânica que Ney ostenta nos palcos. Barbosa não se limita à imitação; ele encarna a alma do cantor, dominando os gestos, os olhares e a postura cênica com uma precisão impressionante. Além do domínio performático, o ator brilha ao explorar as nuances dos relacionamentos afetivos do artista, destacando-se a belíssima e comovente reconstituição de sua história de amor e cumplicidade com Cazuza — um dos momentos mais afetivos e poeticamente carregados da projeção.

Esmir Filho orquestra essa jornada com uma linguagem visual magnética, na qual a luz, os figurinos icônicos e a direção de arte trabalham em sintonia fina com a trilha sonora inesquecível. Homem com H é uma celebração retumbante da arte como ato de coragem, consolidando-se como uma cinebiografia musical vibrante, capaz de emocionar velhos fãs e apresentar a uma nova geração a força imortal de Ney Matogrosso.


























