John Carter – Entre Dois Mundos (John Carter, 2012) de Andrew Stanton
Digo logo de cara. “John Carter – Entre Dois Mundos” é um sessãozaça da tarde. E o tempo tratou de fazer muito bem esse ajuste.
Inspirado na clássica série de livros Uma Princesa de Marte, escrita por Edgar Rice Burroughs e publicada originalmente a partir de 1912, o épico de ficção científica John Carter – Entre Dois Mundos (2012) carrega consigo uma das trajetórias mais curiosas e injustas do cinema contemporâneo. Olhando para trás, muitos anos após a sua estreia oficial, o filme infelizmente ficou marcado na cultura pop por carregar o incômodo fardo de ter sido um dos maiores desastres de bilheteria da história dos estúdios Disney.
Hoje, esse prejuízo financeiro pode ser encarado meramente como um número frio de mercado, uma vez que, quando analisamos suas qualidades estéticas e narrativas despida do peso das expectativas corporativas, descobrimos um filme ótimo e uma aventura de escala genuinamente grandiosa.
O projeto marcou a audaciosa estreia do aclamado diretor e roteirista Andrew Stanton no comando de produções em live-action (com atores reais). Vindo de um histórico impecável no cinema de animação da Pixar, onde assinou obras-primas como Procurando Nemo (2003) e WALL-E (2008), Stanton demonstrou uma habilidade formidável ao migrar de linguagem. Comandar um set físico, coordenar performances humanas reais e equilibrar a organicidade do elenco com a artificialidade dos cenários digitais exige uma destreza que muitos diretores de animação falham em replicar. Stanton, pelo contrário, triunfa ao nos entregar uma jornada vibrante, que pulsa com a energia dos antigos folhetins de aventura, sem nunca perder o controle do arco dramático de seus personagens.
Do ponto de vista puramente técnico, a produção é excelente. Os efeitos especiais avançados dão vida ao planeta Barsoom (o nome nativo de Marte) com uma riqueza de texturas impressionante. As criaturas quadrúpedes Tharks, geradas por computação gráfica, possuem um peso físico e uma expressividade que rivalizam com grandes criações digitais da época. A direção de arte constrói cidades flutuantes e arenas de combate que evocam um misto de arqueologia futurista e opulência romana. Toda essa escala visual serve de palco para a história de John Carter (interpretado com ótima presença de corpo e espírito por Taylor Kitsch), um veterano da Guerra Civil americana que é transportado magicamente para o solo marciano, onde a menor gravidade local o dota de uma força e agilidade sobre-humanas.
É comum que o espectador menos atento sinta uma sensação de déjà vu ao assistir à produção, identificando elementos visuais e conceituais que remetem a fenômenos como Star Wars (1977), Avatar (2009), O Planeta dos Macacos (1968) ou até mesmo épicos de arena como Gladiador (2001). Todavia, o que ocorre aqui é um fenômeno de influência invertida: como o material de Burroughs foi publicado há mais de um século, foram todas essas franquias modernas que beberam, direta ou indiretamente, da fonte pioneira de John Carter.
Embora a trama se torne ocasionalmente densa e complexa devido ao excesso de nomenclaturas exóticas e intrigas políticas envolvendo figuras como Dejah Thoris, Tars Tarkas, Matai Shang e Sab Than, o roteiro compensa o público com excelentes doses de diversão e uma metalinguagem charmosa que insere o próprio autor, Edgar Rice Burroughs, como personagem dentro do mistério. Livre das amarras do famigerado formato 3D da época, que pouco acrescentava à experiência, o longa se consolida hoje como uma aventura de luxo. Uma obra que merecia continuações e que, livre do estigma de seu resultado comercial, finalmente pode ser apreciada como o grande triunfo de imaginação que de fato é.
INFORMAÇÕES ESPECIAIS:
O diretor e roteirista Andrew Stanton foi indicado ao Oscar de roteiro original por Toy Story (1995), Procurando Nemo (2003) e Wall-E (2008). Venceu o Oscar de melhor animação por Procurando Nemo (2003) e Wall-E (2008) e foi indicado ao Oscar de roteiro adaptado por Toy Story 3 (2010); O roteirista Michael Chabon escreveu o livro que virou filme, Garotos Incríveis (2000), além da história de Homem-Aranha 2 (2004).


























