
Deuses e Monstros (Gods and Monsters, 1998) de Bill Condon
A Melancolia Genial de “Deuses e Monstros”: O Retrato Íntimo de um Criador de Mitos
O aclamado drama Deuses e Monstros (Gods and Monsters, 1998) finalmente recebe o tratamento que merece e já está disponível no catálogo da Classicline (mídia física em DVD). Trata-se de um resgate histórico fundamental: em 2006, o filme havia saído apenas em um DVD numa edição pífia, vendida em bancas de revista, com qualidade técnica duvidosa. Essencial na videoteca de qualquer amante do cinema, esta produção refinada venceu o Oscar de melhor roteiro adaptado e o Globo de Ouro de atriz coadjuvante para Lynn Redgrave, consolidando-se como uma obra-prima sobre o ocaso da vida e da arte.
Grande destaque do filme, Ian McKellen ganhou sua primeira indicação ao Oscar de melhor ator por uma interpretação histórica e avassaladora. Na pele do personagem real James Whale — o lendário diretor britânico que revolucionou o cinema de horror em Hollywood com clássicos imortais como Frankenstein (1931) e A Noiva de Frankenstein (1935) —, o ator também concorreu ao Globo de Ouro. O drama, que reconta com enorme sensibilidade os últimos dias de vida do cineasta, recebeu ainda a nomeação ao Globo de Ouro de melhor filme (drama) e deu a Lynn Redgrave sua justa indicação ao Oscar.

A narrativa se passa em 1957. James Whale, aposentado há anos e recuperando-se de um derrame, vive isolado em sua casa, ocupando seus dias com a pintura. Ele conta apenas com os cuidados de Hanna (Lynn Redgrave), sua dedicada, fiel e severa empregada. No entanto, a rotina pacata é profundamente abalada pela chegada de um novo jardineiro, Clayton Boone (Brendan Fraser), um ex-veterano da Marinha e da Guerra da Coreia. Mais do que uma biografia, o longa é um estudo poético sobre a vulnerabilidade humana, onde os verdadeiros monstros não são os da tela, mas os fantasmas do passado.
Mesmo diante de abissais diferenças culturais, Boone desperta o desejo e o fascínio do diretor. O jovem não possui o refinamento do patrão e, ao descobrir suas preferências sexuais, é tomado por dúvidas sobre as verdadeiras intenções daquele homem idoso. Todo esse jogo psicológico ocorre sob os olhares vigilantes da governanta Hanna, que tenta proteger o rapaz de ser envolvido pelos charmes do patrão.
Ainda assim, uma amizade improvável floresce. Boone passa a ser pago para posar para os quadros de Whale, criando uma dinâmica de cumplicidade que equilibra beleza e perigo. Enquanto o melancólico diretor submerge em suas próprias memórias de guerra e glória cinematográfica, algo inesperado e trágico se desenha no horizonte, transformando Deuses e Monstros em uma reflexão inesquecível sobre a imortalidade da arte diante da fragilidade do corpo.
Bill Condon
Roteirista do vencedor do Oscar de melhor filme, Chicago (2002), Bill Condon adaptou o roteiro e dirigiu Deuses e Monstros. Em sua filmografia filmes sortidos, como o drama Kinsey (2004), o drama-musical Dreamgirls – Em Busca de um Sonho (2006), os dois filmes que findam a “saga” Crepúsculo (Amanhecer – Parte 1 e 2; 2011-2012) e o thriller fracassado O Quinto Poder (2013). Assinou o live-action de A Bela e a Fera (2017), para a Disney, e a nova versão de O Beijo da Mulher-Aranha (2025). Após Deuses e Monstros, seguiu a parceria com Ian McKellen em Sr. Sherlock Holmes (2015) e A Grande Mentira (2019).

























