Coringa: Delírio a Dois (Joker: Folie à Deux, 2024) de Todd Phillips
Quando o primeiro filme sobre o icônico vilão de Gotham chocou o mundo, seu trunfo residia na crueza urbana e no estudo psicológico de um homem marginalizado. Deu Oscar e Globo de Ouro de Melhor ator para Joaquim Phoenix, inclusive, lembram? O primeiro filme, para além do sucesso de bilheteria, ganhou o prestigiado Leão de Ouro no Festival de Veneza (Melhor Filme) e concorreu ao Globo de Ouro e Oscar de Melhor Filme.
A confirmação de uma sequência trouxe consigo uma série de rumores de bastidores que agora, diante da tela, parecem fazer completo sentido. É sabido que o diretor Todd Phillips não tinha o desejo inicial de conceber uma continuação para a história de Arthur Fleck. No entanto, diante da insistência massiva da Warner Bros., motivada pelo faturamento bilionário do longa anterior, o cineasta parece ter tomado uma decisão artística puramente reativa e audaciosa, quase como uma provocação industrial: “Pois bem, se querem uma sequência, farei dela um musical profundamente deprimente!”
O resultado dessa escolha é uma superprodução que se desvia completamente da atmosfera estabelecida no primeiro capítulo. Coringa – Delírio a Dois abdica da tensão social e da violência catártica para se trancar em um tribunal e nos corredores cinzentos do Asilo Arkham, transformando o palácio mental de seu protagonista em um palco de canções clássicas americana. Essa transição para o gênero musical é um movimento estético ousado, mas que cobra um preço altíssimo de seu ritmo. O filme se revela uma experiência cinematográfica apenas regular e extremamente irregular na condução de suas duas horas e meia, gerando um cansaço narrativo evidente.

Do ponto de vista estritamente técnico e estético, o longa-metragem é indiscutivelmente bem-sucedido. E há muito dinheiro aqui. A fotografia é visualmente bonita, operando com um design de produção que brinca com cores saturadas dentro dos números musicais em contraste com o realismo opressivo e dessaturado da realidade prisional. No entanto, essa embalagem requintada esconde um roteiro um pouco vazio, que repisa as mesmas discussões éticas e psicológicas do passado sem de fato mover a trama ou o personagem para uma nova direção.
No epicentro desse turbilhão, as duas principais performances seguem caminhos distintos.
Mesmo com o roteiro irregular, Joaquin Phoenix continua absolutamente dono do papel. Sua entrega física, o controle milimétrico de suas expressões de agonia e a risca patológica que ele confere a Fleck provam que seu domínio sobre o personagem permanece intocado e magnético.

O problema Lady Gaga. Pois é, infelizmente sua personagem é extremamente mal aproveitada. Embora sua presença vocal seja potente nas canções, a figura de Lee (uma releitura de Arlequina) carece de estofo dramático, funcionando mais como um reflexo das fantasias de Arthur do que como uma força narrativa independente e tridimensional.
Ao abraçar as canções como fuga, o filme faz jus ao seu próprio título e se transforma em um verdadeiro e grande delírio. Porém, longe de ser uma viagem lúdica ou divertida, a produção atinge um nível de melancolia sufocante. Trata-se de uma obra muito deprimente mesmo, que extrai qualquer vestígio de poder de seu protagonista para expor a carcaça de um homem quebrado, que nem mesmo a música consegue salvar. Ao final, a sensação que fica é a de termos testemunhado um experimento bizarro de autofagia artística, onde o diretor entregou o oposto do que o estúdio desejava, criando um espetáculo cujo maior objetivo é desmistificar o próprio mito.

























