Acusados (The Accused, 1988) de Jonathan Kaplan | Com: Jodie Foster, Kelly McGillis, Bernie Coulson, Leo Rossi, Steve Antin, Carmen Argenziano e Ann Hearn.
A Classicline acerta em cheio ao relançar em mídia física Acusados (1988), um intenso e dilacerante drama de tribunal que, além de sua inestimável relevância social, marcou a história do cinema ao render o primeiro Oscar de melhor atriz a Jodie Foster. Assistida quase quatro décadas após o seu lançamento original, a obra infelizmente não perdeu o seu vigor e ainda suscita discussões urgentes e necessárias sobre o calvário pelo qual passam as vítimas em casos de denúncias de estupro. O roteiro expõe uma engrenagem jurídica perversa, na qual as mulheres são frequentemente transformadas de vítimas em suspeitas nos seus próprios casos, tendo sua conduta moral, suas roupas e seus hábitos julgados de forma implacável pelo corpo social.
O roteiro do longa foi baseado em um trágico caso real ocorrido em New Bedford, Massachusetts, ao recontar a dolorosa história de Sarah Tobias, uma jovem de classe operária brutalmente estuprada por três homens em cima de uma mesa de pinball em um bar local, enquanto uma horda de frequentadores assiste, aplaude e incentiva o ato violento. A promotora distrital Kathryn Murphy (vivida com sobriedade por Kelly McGillis, então no auge da carreira após o estrondoso sucesso de Top Gun: Ases Indomáveis), assume o caso sabendo perfeitamente das barreiras estruturais do processo. O ponto alto e de maior carga dramática da produção se consolida quando a promotoria decide processar também os espectadores que estimularam o crime, forçando a jovem vítima a reviver a noite do ataque ao confrontar seus abusadores diretamente no tribunal.
No centro dessa engrenagem dramática pulsa a atuação magistral de Jodie Foster. Este filme foi o divisor de águas definitivo em sua transição de estrela mirim para uma das atrizes mais respeitadas de sua geração. A entrega de Foster ao papel de Sarah Tobias é assombrosa em sua crueza e dignidade. Longe de vitimizar a personagem de forma unidimensional, a atriz constrói uma mulher real, imperfeita, marcada por vulnerabilidades socioeconômicas, mas dona de uma revolta feroz contra o silenciamento institucional. Nas cenas de tribunal, o trabalho corporal e a intensidade no olhar de Foster traduzem o horror de uma sociedade profundamente machista que tenta culpar a agredida pelo próprio abuso sofrido, tornando o ambiente jurídico ainda mais injusto e hostil.
Por essa interpretação visceral e inesquecível, Jodie Foster ganhou não apenas o Oscar de melhor atriz principal — o primeiro de sua carreira, cujo segundo chegaria logo depois com o fenômeno O Silêncio dos Inocentes (1991) —, mas também arrematou o Globo de Ouro de melhor atriz em drama, além de uma merecida indicação ao prestigiado prêmio BAFTA. A grandiosidade de sua atuação é o principal pilar que sustenta o impacto emocional da narrativa, transformando o sofrimento de Sarah em um grito universal por respeito e reparação histórica.
O espectador inevitavelmente se pergunta: como pode um filme de 1988 ainda ser tão assustadoramente atual em suas denúncias sobre a cultura do estupro e a culpabilização da vítima? É justamente por essa perenidade temática que Acusados se consolida como mais uma obra essencial que merece ser vista, exaustivamente revista e guardada com destaque na prateleira de qualquer cinéfilo.
A direção segura pertence a Jonathan Kaplan, cineasta que provou imensa versatilidade técnica em Hollywood ao assinar projetos bem-sucedidos e de gêneros variados, como a ficção científica Projeto Secreto: Macacos (1987), o suspense psicológico Obsessão Fatal (1992), o drama racial As Barreiras do Amor (1992), o faroeste feminino Quatro Mulheres e Um Destino (1994) e o drama médico A Viagem (1999). Um clássico definitivo e obrigatório.

























